quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

HAIJIN

Haijin é a pessoa que faz haikai.
Hai de haikai mais jin de pessoa. Portanto poeta.
Mas um tipo diferente de poeta.
Por exemplo, haijin é poeta de pouca ou nenhuma rima.
Embora, dentro do haikai, as palavras conversem entre si, isso não acontece necessariamente na última palavra de cada verso, mas lá dentro, como se os sons que ecoam brincassem de esconde-esconde.
Haijin não costuma usar palavras complicadas, de significados difíceis ou misteriosos. Daquelas nos obrigam o tempo todo a consultar o dicionário.
O haijin escreve como quem fala.
Como se estivesse conversando conosco.
Haijin não escreve sobre seus próprios sentimentos ou pensamentos. Escreve sobre as coisas. Simplesmente descreve o que vê.
Deixa que as coisas falem por si. E elas falam. Porque o tema, o assunto do haikai, é a natureza.
E a natureza oferece mais ensinamentos do que muitos mestres e livros juntos.
E muito melhor do que muitas teorias superelaboradas.
Haijin é quem esquece de si mesmo ao olhar uma flor, uma estrela, um capim ou a gota de orvalho que balança na ponta de um galho. Ou mesmo um dia de chuva , um mosquito, uma árvore seca. Como se ele mesmo fosse cada uma dessas coisas.
O haijin não olha com a mente. Não olha com o coração. Haijin é quem olha com os olhos. Como se nem seu coração, nem sua mente, nem ele mesmo estivesse ali. E ao mesmo tempo ele está totalmente envolvido com cada coisa que ele olha. Como se ele e a coisa olhada fossem um só. Sem sentir. Sem refletir. Sem pensar. Sem intenção. Ele apenas registra [...]. Só que faz isto com as palavras.
Uns diriam que é óbvio. Outros diriam que é difícil. Todos estão certos. Porém, mais certo está o haijin. Porque olha além do óbvio. Além do difícil. Olha para onde tudo, simplesmente existe.

Alice Ruiz S. 
 

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