sexta-feira, 21 de abril de 2017

A duração do dia


Tão bom aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tenho comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível da poeira
em onda invisível dança e luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.

Adélia Prado


segunda-feira, 10 de abril de 2017


A Ilha das Sereias

Quando os anfitriões, seus bons amigos,
já tarde, ao retornar, no fim do dia,
indagavam das provas e dos perigos
por que passara, ele não sabia

como alertá-los , que palavra rude
ele usaria para reviver,
no mar que o azul reveste de quietude,
o dourado das ilhas do prazer

cuja visão faz com que até o perigo
mude de forma: não mais no castigo
e no furor do vento costumeiros;
no silêncio ele atinge os marinheiros,

que sabem que nos pélagos extremos
Daquelas ilhas de ouro acha-se o canto;
que eles, às cegas, se agarram aos remos,
sitiados pelo encanto

do silêncio, como se ele ocupasse
todo o espaço que existe
e a sua outra face
fosse esse canto a que ninguém resiste.

Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Capoeira Angola


Minha pele negra

Minha pele negra
Carrega a história
Do início do mundo

Antes de existirem
Culturas, continentes
Navegações, Reinos.

Minha pele negra
carrega a origem
da humanidade:

Mãe África.

Minha pele negra
carrega a história
de opressão,

Raptos, prisões, mortes, exploração, estupros
importação de seres humanos
Desumanizados pela sede econômica.

Minha pele negra
carrega a história de meus antepassados

Que baixo a todo tipo de opressão
Violência, humilhação física
Danos psicológicos a sua gente
Dominação e subalternidade

Minha pele negra
Carrega a história de um povo

Que preservou e resgatou sua cultura
Recriou seu continente
Lutou com a capoeira
Encontrou forças no culto a seus orixás.

Minha pele negra
carrega a alegria, a força, a resistência
a dança, o canto, a Natureza.
Carrega a ginga, a juventude,
A beleza, o toque dos atabaques.

Minha pele negra
é uma fortaleza
construída com suor, revolta,
coragem e muito amor.

Amor pela vida.
Amor pela liberdade
Amor pelos seus irmãos
Amor pela igualdade

Minha pele negra
carrega a sede e a necessidade
urgente de transformação

Minha pele negra
É a revolução.

Danieli de Castro

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"a delícia de ser uma eterna aprendiz" D.C



2017

Vi o post da Huayra, uma argentina linda. O nome dela significa vento. Nossa história é bem parecida. É filha de pais separados. Olhando o post dela, listo! Me inspirei! Ela fez uma lista numerada, descrevendo tudo o que aprendeu neste ano. E eis a minha cópia personalizada! kkkkkkkkkkkkkkkkkk 1. Entendi antes de tudo que cada um de nós teremos um drama, um trauma algo a superar. E isto é que nos torna as pessoas que somos. Que é fundamental ser autêntico. E se for bom, muitos vão querer te copiar. 2. Aprendi que antes de mim, sempre vem meus antepassados. E que escutá-los é importante. Fundamental. 3. Aprendi a compartilhar espaço e abrir mão de muitos rituais pessoais que eu tinha. Depois resgatá-los, um a um. 4. Aprendi a apagar as luzes, fechar a porta da geladeira e definir minhas prioridades e limites. 5. Aprendi a me olhar, me enxergar, me admirar comigo mesma. Me amar muito cada dia mais e sobretudo a me Valorizar. A respeitar minha origem, minha caminhada e não permitir abusos de ninguém! Ninguém! 6. Entendi que dinheiro é apenas um meio de chegar até as coisas que almejamos. Mas, as coisas que amamos não tem dinheiro que pague. Senti muita falta dos Florais da Mônica. E compreendi que ser vegetariano é uma opção para quem tem melhores condições financeiras. 7. Senti que amo demais a Música, a Dança, o Teatro, o ensino. Amo ser profe. 8. Concluí mais uma vez, com um ângulo bem direcionado, que somos seres humanos antes de tudo. E que o amor é o mais importante. O amor e o respeito, antes de tudo por nós mesmos. Compreendi que eu gosto de ser homem e mulher. Criança e idoso. Gosto de ser Yin e Yang. Animus e Ânima. Me encantam as pessoas difusas. E a diversidade é fundamental para a nossa existência. 9. Senti profunda e visceralmente a minha missão. Conheci muitas pessoas. Encontrei muitos amigos. Compreendi empiricamente o é ser madrinha. E ter uma Madrinha. E me pareceu mais importante até que ser mãe... 10. Eu amo capoeira. 11. Sou candomblecista. Negra. Angoleira. Artista Educadora e detesto usar hífens! Kkkkkkkkkkkk. Tenho orgulho do ser humano que eu sou. 12. Aprendi que antes de apontar um defeito nos outros tenho que elencar no mínimo 10 meus. 13.Compreendi que ter misericordia é o mesmo que ser empático. Só o que o primeiro tem um cunho espiritual. E o segundo um cunho mais acadêmico. Mas, que no final dá no mesmo. Kkkkkkkkkk! 14. Aprendi a falar menos e observar mais. 15. Aprendi que as pessoas mentem muitas vezes até para si mesmas. E que é importante perdoá-las. E orar por elas. 16. Em contrapartida, compreendi que devemos aceitar nossa agressividade e viver harmoniosamente com ela. Ela muitas vezes nos salva. 17. Entendi o que significa ser Feminista e ser uma Mulher Selvagem. 18. Aprendi a gostar muito mais de histórias antigas. Tive encontros literários incríveis. 19. Faço parte do Balé Ritualístico do meu Ilê. Este é um objetivo realizado. 20. Aprendi a conviver com a guerra, sem me ferir com suas balas. Me fortaleceu muito. Me feriu um pouquinho. Mas, a Natureza também renova a cada estação. 21. Me senti Natureza. 22. Aprendi o valor de um abraço. 23. Me relacionei muuuuuuiittoooooo! Meu maior record! E morram de espanto: Com as mesmas pessoas! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk 24. Tenho aprendido o valor de boas companhias. E que nosso caminho trilhamos com nossos próprios passos. 25. Perdi a noção da minha condição financeira. Machuquei o joelho. Vi minha maior referencia na capoeira no seu dia a dia. Aprendi a ser irmã e a pensar mais no outro que em mim. 26. Ao fim da experiência, entendi que mais correta é minha intuição, que autoconhecimento é fundamental. Que é importante não negociar minhas particularidades. E estar conectada à minha essência. 27. Que às vezes as pessoas te criticam de frustração consigo mesmas, porque ainda nem sabem quem realmente são... Acham que são o que acreditam ser... Medo. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk 28. Aprendi que vou chegar aos trinta. 29. Mas, que ainda tenho 29 e que vou aproveitá-los até o fim. Porque meus 29 anos jamais voltarão! Talvez, como eu vocês se identifiquem com algum aprendizado em comum. Talvez se inspirem como eu. Ou talvez ria à beça desta crônica improvisada. Para mim o mais importante está no Vento, como diz o nome Huayra... A Liberdade de ser quem você realmente é. Obrigada a todas e a todos que fizeram de mim uma pessoa melhor. O que é bom revigora, o que é mal fortalece. Assim é a vida. Minha palavra do ano seria Gratidão. Muito obrigada. Grata. Muito grata. Que 2017 nos traga os aprendizados adequados, com tudo de bom que cada aprendizado pode trazer. Nesta delícia que é ser uma eterna aprendiz.
Danieli de Castro


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Pierrot desiludido...


Tragédia amorosa

Faz tempo que não
me acorda
um poema...

tempos secos
de humores ácidos
críticas e
falta de autoconhecimento.

Um lamento
o eu-lírico
Pierrot desiludido

Nesta faina diária
Um sorriso aberto
encontrar?

Um dia...
Quem sabe?

Do outro lado da casa
Adormeceu um Arlequim
Danado!

Tomou Colombina das
Mãos de seu amado
E com ela saiu a bailar!

Confetes, cores,
Sons, ritmos,
danças... amores.

Afinal o universo
a gente carrega
dentro do coração
da gente.

Dorme, Pierrot
Amanhã será um novo dia.
Acredite.

Danieli de Castro

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Ancestralidade e continuidade


Mama África - Chico César

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...(2x)

Mama África, tem
Tanto o que fazer
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender
Mama África vai e vem
Mas não se afasta de você...


Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...


Quando Mama sai de casa
Seus filhos de olodunzam
Rola o maior jazz
Mama tem calo nos pés
Mama precisa de paz...

Mama não quer brincar mais
Filhinho dá um tempo
É tanto contratempo
No ritmo de vida de mama...


Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...(2x)


É do Senegal
Ser negão, Senegal...


Deve ser legal
Ser negão, Senegal...(3x)

Mama África
A minha mãe
É mãe solteira
E tem que
Fazer mamadeira
Todo o dia
Além de trabalhar
Como empacotadeira
Nas Casas Bahia...(2x)


Mama África
A minha mãe
Mama África
A minha mãe
Mama África...

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Saudosa Maloca...


Maloqueira, eu?

Segunda-feira:
Minha história coube em trinta minutos
E ainda pude livremente chorar


Com um certo pejo
claro... mas, com propósito
Libertador.


Meu pai me chamou:
- Maloqueira.
Algo sutilmente doeu em mim.


Será que meu pai não me conhece?


Não sabe que sim, que andei pelas ruas
pedindo dinheiro, que já passei fome,
Maus tratos, assédios...


Que vivi numa maloca de madeira
até os dezenove anos de idade...
Quando fui expulsa de casa
Ao voltar da universidade...


E que eu chorei! Sim... muito,
Mas lutei, todos os dias com dor e
com medo, mas com um esperança
Absoluta.


Com a mansidão e inteligência
de uma fera controlada
fui avançando as esferas de uma
sociedade excludente.


E agora? Não, senhor!
Maloqueira não, sou Poeta!
Artista por extensão.


Dançando nas contrariedades
Da vida, atuando com a solidão
Maloqueira não, sou artista!
Poeta por extensão!


Terça-feira:
Minha história coube num poema
E ainda posso livremente sonhar.


Danieli de Castro





sexta-feira, 12 de agosto de 2016


O semelhante

O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança
 
Elisa Lucinda