terça-feira, 20 de agosto de 2013

As três romãs

Era uma vez uma princesa que sabia muito bem o que queria. Ela passava as tardes na janela do seu quarto, que ficava num palácio de paredes de prata, que ficava num vale, onde havia um lago, que refletia a luz do sol. Como todas as princesas de verdade, era bela. No seu rosto ela reunia a beleza de todas as mulheres do mundo, e no seu canto havia a melodia nem sequer sonhada pelos corações mais apaixonados. Ela sabia esperar. Príncipes valorosos de todas as partes do mundo viajaram muitas léguas para pedir sua mão em casamento, ajoelharam-se diante dela, prometeram-lhe as riquezas do céu e dos mares. Ela mal escutava suas palavras exaltadas. Esperando outra voz, vinda de um outro lugar, ela os despedia, distraída.
Um dia, preocupado com tantas recusas, o rei - seu pai - a chamou e ordenou-lhe que escolhesse logo um marido, de acordo com o costume.
- O que deve ser, meu pai - respondeu a princesa -, nem sempre acontece. Eu já escolhi o homem com quem poderei me casar, de acordo com minha vontade. Só não sei bem se está de acordo com a sua.
Dizendo isso, a princesa levou o rei até a janela do seu quarto, de onde ela costumava ver todos os dias o mercado lá embaixo, com seus artesãos e mercadorias de todas as cores.
- Está vendo aquele homem sentado trançando um cesto, no meio das palhas, embaixo daquela tenda verde?  - ela perguntou, apontando na direção de um canto da praça.
O rei procurou com os olhos e acabou encontrando um homem alto, com a pele queimada do sol, mãos grandes e calejadas de trabalhador, roupas gastas e aspecto rude. Ele não podia acreditar que sua filha preferisse um simples cesteiro em lugar de tantos nobres que a tinham cortejado.
- Senhor meu pai, saiba que é com esse homem que quero me casar e com nenhum outro.
O rei tentou dissuadi-la, mas foi em vão. Vendo que a princesa estava firme em sua decisão, ele disse finalmente:
- Já que é assim, não vou impedir esse casamento insensato. Mas nunca mais você poderá voltar a esse palácio, por nenhuma razão que seja.
A princesa olhou o rei pela última vez, desceu as imensas escadarias do palácio, atravessou os jardins e saiu pelo portão fortificado, deixando pra sempre o lugar onde tinha passado toda a sua vida. Quando chegou lá embaixo no mercado, caminhou até a tenda do cesteiro, que se chamava Gambar.
A conversa que se passou entre eles foi muito curta, espantosamente simples.
O cesteiro ficou espantado ao ver a princesa diante dele, sorrindo para ele.
- Vejo- a todos os dias na janela - ele disse - , mas jamais imaginei que fosse tão bela. Por favor, diga o que quer comprar e depois vá logo embora, porque a memória do breve instante da sua presença guiará os meus dias daqui para a frente.
 - Gambar - respondeu a princesa - , eu não quero comprar nada, vim até aqui para pedir que se case comigo.
- Mas eu não tenho nada para abrigá-la além da minha pequena casa de taipa - disse Gambar com alegria por dentro da voz.
- Você sabe que eu quero apenas abrigo no seu coração, Gambar. O resto, a gente resolve de algum jeito, você não acha?
Nenhum dos dois disse mais nada. O certo é que desse dia em diante a princesa começou uma nova vida na pequena casa de taipa, ao lado do cesteiro Gambar. E viviam muito felizes, até que um dia, enquanto conversavam antes de dormir, a princesa disse:
- Gambar, você trabalha muito e não recebe o quanto merece pelo seu esforço. Veja suas mãos cheias de calos, a fadiga que se apodera do seu corpo todos os dias. E o que você ganha com isso? Muito pouco, não vale a pena tanto sacrifício. Por que não procura um outro trabalho menos cansativo e mais rendoso?
No dia seguinte, enquanto pensava nas palavras da princesa, Gambar encontrou um mercador na praça. O homem viajava pelo mundo com seus animais carregados de mercadorias preciosas e estava procurando um acompanhante para ajudá-lo nas obrigações de todos os dias. Gambar lhe pareceu a pessoa ideal, com seu jeito quieto e confiável, seu sorriso franco e sua disposição para trabalhar. Os dois se entenderam perfeitamente e combinaram seguir viagem na manhã seguinte.
Quando chegou em casa, Gambar abraçou a princesa e contou-lhe a novidade.
- Seguindo seu conselho- ele disse-, eu encontrei um trabalho melhor. Vou ganhar muito mais dinheiro, mas para isso terei que me ausentar por um longo tempo, ainda que me custe muito separar-me de você.
- Mesmo sabendo que vou sentir sua falta a cada minuto - ela respondeu- , não precisa se preocupar. Eu saberei esperá-lo pensando no dia da sua volta.
Eles foram para a cama e passaram sua última noite juntos antes da partida de Gambar. Amaram-se sem pressa, trocando segredos. Despediram-se quando amanheceu o dia, e Gambar tomou o caminho do mundo, na grande caravana do mercador.
Durante muito tempo viajaram por cidades desconhecidas, florestas, rios e montanhas, até que um dia chegaram a um deserto escaldante. Depois de muito procurarem, encontraram um poço e pararam para descansar.
Enquanto isso, lá na aldeia de Gambar, a princesa deu à luz uma criança. Embalando o filho nos braços, ela cantava doces cantigas dos seus antepassados e tentava imaginar onde estaria Gambar naquele momento sem saber do filho que acabava de nascer.
Lá no deserto, Gambar entrou no poço com uma corda atada à cintura, para dar de beber aos animais da caravana. Ele mergulhava o balde na água e o estendia para o mercador, inúmeras vezes, até que todos tivessem bebido. Quando foi sair do poço, aconteceu uma coisa muito estranha. De repente a corda se soltou da sua cintura, como se mãos invisíveis a tivessem desatado, e ele caiu no fundo do poço. Foi caindo vertiginosamente, por um corredor escuro, cada vez mais para baixo, até que chegou a um lugar que parecia completamente seco, onde não se enxergava nada. Foi tateando pelo chão, encontrou uma parede e em seguida a maçaneta de uma porta. Assim que a abriu, viu-se em uma sala deslumbrante. O assoalho era de ouro, as paredes de lápis-lazúli, o teto incrustado de diamantes e pedras preciosas. Bem à sua frente estavam três jovens sentadas num banco, bordando um tapete com fios de seda de todas as cores. Num canto da sala havia uma mesa, sobre a qual estava uma rã em cima de uma bandeja de prata. A rã não se mexia e olhava sem parar para um jovem que parecia um príncipe, sentado numa cadeira virada para ela, olhando- a fixamente.
- Jovem estrangeiro - disse uma das moças, interrompendo o espanto de Gambar diante daquela cena inusitada - , temos umas perguntas para lhe fazer. Quem, dentre nós, é a criatura mais desejável deste lugar? Por que este príncipe não tira os olhos desta rã? Por acaso ela é melhor e mais bela do que nós?
- Não existe ninguém melhor para um homem do que a mulher que ele ama - disse Gambar.
Nesse mesmo instante a rã caiu no chão, como que atingida por um raio. Sua pele se abriu e de dentro dela surgiu uma jovem tão deslumbrante que as outras três pareciam sombras esmaecidas diante dela. A jovem correu para o príncipe e eles ficaram um tempo abraçados, em silêncio. Depois o príncipe dirigiu-se a Gambar:
- Suas palavras desencantaram minha amada, que tinha sido transformada em rã por um feiticeiro que a desejava. Você merece uma recompensa, estrangeiro de alma franca.
Ele ordenou que uma das jovens fosse até a sala vizinha e ela voltou logo depois com três romãs, que entregou a Gambar. Recebendo com alegria o presente, mesmo sendo tão singelo, Gambar se despediu daquelas pessoas e saiu por onde havia entrado. Atou a corda à cintura e o mercador o puxou de volta à superfície. Contou ao mercador o que havia acontecido nas profundezas do poço, e a caravana retomou a viagem. No caminho cruzaram com um outro mercador, que voltava para a cidade de Gambar.
- Por favor, amigo- disse-lhe Gambar - , leve essas frutas para minha mulher, a princesa. Conte-lhe que penso nela o tempo todo e que logo voltarei para casa.
Assim que chegou à cidade o mercador procurou pela princesa e entregou-lhe as três romãs. Sabendo que era um presente de Gambar, ela ficou muito feliz e colocou as frutas sobre a mesa. Pegou uma faca e abriu uma delas. Seu espanto foi enorme: um brilho de finos raios de luz surgiu de dentro da romã e espalhou-se pela sala, iluminando- a toda. Em vez dos pequenos e suculentos gominhos vermelhos, havia lá dentro pérolas puríssimas, uma ao lado da outra. Ela partiu a segunda fruta, e lá estavam rubis e esmeraldas. Partiu a terceira e lá dentro encontrou valiosos diamantes.
Lá longe onde estava, Gambar não aguentou mais de tanta saudade da sua princesa. Despediu-se do mercador, recebeu o que lhe era devido por seu trabalho e tomou o caminho de volta para casa. Pareceu-lhe dessa vez um caminho mais longo, tal era seu desejo de rever a princesa. Finalmente ele avistou o campo de trigo que ficava nos arredores da sua cidade e passou por um grande rebanho de carneiros. Gambar perguntou ao pastor de quem eram aqueles carneiros.
- Senhor - ele respondeu respeitosamente -, estes carneiros pertencem a Gambar, o marido da princesa.
Gambar não entendeu a resposta e pensou que o homem devia estar fazendo alguma confusão. Sem dar muita importância ao assunto, já que tudo o que ele queria era encontrar a princesa, continuou pelo caminho, atravessou o rio que margeava a cidade e foi se aproximando alegremente da sua entrada. Encontrou muitas vacas pastando perto dos muros da cidade e perguntou a um homem que passava de quem eram aquelas vacas.
- Gambar, o marido da princesa, é o dono de todas elas - respondeu o homem.
Dessa vez Gambar se inquietou. O que estaria acontecendo com aquelas pessoas? " A mesma resposta sem sentido, duas vezes seguidas", ele pensou. Que explicação haveria para tamanha loucura?
Ele entrou na cidade e, ao virar uma esquina de onde costumava ver sua pequena casa de taipa, parou estarrecido. A casa não estava mais lá. No seu lugar havia um imenso palácio de mármore e janelas de ouro, uma cúpula cor de esmeralda com arabescos de prata, muito mais suntuoso do que o palácio real.
" O que fizeram com minha princesa?", ele pensou angustiado. "Para onde ela foi?"
Ele resolveu entrar no palácio para indagar se alguém saberia informar alguma coisa sobre sua mulher, e atravessou o pátio deserto com o coração apertado. Avistou uma porta fechada, feita de madeira finamente entalhada, e parou diante dela. Antes de bater, ouviu do outro lado uma voz doce de mulher que dizia baixinho:
- Meu filho, como você é parecido com seu pai.
- Quando é que ele vai voltar? - perguntou uma voz de menino pequeno. - Tenho muita vontade conhecer o meu pai.
- Alguma coisa me diz que ele já passou pelo nosso campo de trigo- disse a mulher. - Que também já viu nossos carneiros, já atravessou o rio, encontrou todas as nossas vacas, já chegou ao nosso palácio e está atrás da porta, quer ver?
A princesa abriu a porta e seus olhos brilharam como o sol da manhã.
Guiado pelo fio invisível do amor de uma princesa que sempre soube o que queria, o cesteiro Gambar voltou para casa, são e salvo, transformado num outro homem, pai de um belo menino, depois de uma longa viagem.

Conto armênio, recontado por 
Regina Machado 

3 comentários:

JPCALMEIDA disse...

Dani sua malukette..cadê vc ?!!!!

JPCALMEIDA disse...

DANI, SUA MALUKETTE CADÊ VC ?!

DANIELI DE CASTRO disse...

Quem é??? Eu estou por aqui! Qualquer coisa dá um "ligão", capisko? hehehehhe