sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Saudades

Quero começar...
Mas,
Por enquanto...

Ainda há devastações
aqui.

Ninguém vê
Ninguém nunca vê
O que é mais importante...

Falar a verdade
é um ato
inconveniente...

Mentir é mais decente.

Eu que já tive um pai
Eu que tenho uma mãe
E sinto saudades da minha vó.

Se ela estivesse aqui diria:

-Ah, então você não é minha neta,
porque eu não tenho medo de nada.

Ah, vó... me empresta um pouco da
tua coragem...
Porque ainda há devastações aqui...

Danieli Casimani


sexta-feira, 21 de abril de 2017

A duração do dia


Tão bom aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tenho comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível da poeira
em onda invisível dança e luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.

Adélia Prado


segunda-feira, 10 de abril de 2017


A Ilha das Sereias

Quando os anfitriões, seus bons amigos,
já tarde, ao retornar, no fim do dia,
indagavam das provas e dos perigos
por que passara, ele não sabia

como alertá-los , que palavra rude
ele usaria para reviver,
no mar que o azul reveste de quietude,
o dourado das ilhas do prazer

cuja visão faz com que até o perigo
mude de forma: não mais no castigo
e no furor do vento costumeiros;
no silêncio ele atinge os marinheiros,

que sabem que nos pélagos extremos
Daquelas ilhas de ouro acha-se o canto;
que eles, às cegas, se agarram aos remos,
sitiados pelo encanto

do silêncio, como se ele ocupasse
todo o espaço que existe
e a sua outra face
fosse esse canto a que ninguém resiste.

Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Capoeira Angola


Minha pele negra

Minha pele negra
Carrega a história
Do início do mundo

Antes de existirem
Culturas, continentes
Navegações, Reinos.

Minha pele negra
carrega a origem
da humanidade:

Mãe África.

Minha pele negra
carrega a história
de opressão,

Raptos, prisões, mortes, exploração, estupros
importação de seres humanos
Desumanizados pela sede econômica.

Minha pele negra
carrega a história de meus antepassados

Que baixo a todo tipo de opressão
Violência, humilhação física
Danos psicológicos a sua gente
Dominação e subalternidade

Minha pele negra
Carrega a história de um povo, do meu povo

Que preservou e resgatou sua cultura
Recriou seu continente em outras terras
Lutou com a capoeira
Encontrou forças no culto a seus orixás.

Minha pele negra
carrega a alegria, a força, a resistência
a dança, o canto, a Natureza.
Carrega a ginga, a juventude,
A beleza, o toque dos atabaques.

Minha pele negra
é uma fortaleza
construída com suor, revolta,
coragem e muito amor.

Amor pela vida.
Amor pela liberdade
Amor pelos seus irmãos e irmãs
Amor pela igualdade, pela equidade. 

Minha pele negra
carrega a sede e a necessidade
urgente de transformação! 

Minha pele negra
É a revolução.


Danieli Casimani