Sou eu

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Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Astrovira

O mais belo gesto de um homem para a mulher é lhe descascar umas maças bem vermelhinhas, escarlates, suculentas e depois de separás-las em pequenos pedaços dar-lhe na boca os pedacinhos...
Nada mais belo e mais significativo... botar na boca dela, roçando nos lábios, pedacinhos de pecado natural...
E beijá-la mesmo tão distante com aquelas palavras que só mesmo ele poderia escrever... um pecado verbal...
Uma delícia sonora, um beijo intenso enlouquecido nos olhos, pelas orelhas, nos lábios, no desejo de um afago que mentalmente se faz no espaço de uma lucidez disfarçada...
Ela, mulher enamorada do seu homem que a espera, sem pressa, com o respeito de um homem que bem ama a mulher. A mulher.
A mulher sorri, sabe que ele sorri também, pelo mesmo motivo.
Obrigada, ela diz em silêncio, naquele mesmo sorriso encantador de antes, de ontem, deles naquele tempo de praia. de prado e de passarinho. O homem voa e ela também espera...
Encantada de pecado mortal.

Danieli de Castro 

Mulher negra e sua filha

Longevidade

Minha ferocidade foi extinta
Prezando um valor que não me cabe, não me coube
e jamais me caberá!

O grito insano que rompe as paredes de aço
que aprisionam o meu ser desalentado...

um sabor amargo
que desce à revelia!

Preciso responder o que me perguntam
Não está tudo certo!!!
Não há caminhos melhores
para àqueles destinados pelos "maiores"  a piores...

Não posso mais acreditar na novela que diz que todo mundo merece ser feliz no final!
Só no final?
Só depois da morte?
No céu?

Por que meus tostões não me valeram?
Por que a vida é esta antipatia toda!?

Por que sonhar é um alento neste mundo sem fim?
Desta Melancolia sem fim...
A vida então se descortina um engodo...

Para que precisamos ter longevidade?
Para servir à pança do Capital?
Quem dúvida?

Desintegrados por dia em cada repartição encardida,
em cada hora que passa, em cada vida perdida!

Cada um busca o seu pão; e o seu café que o chefe vai "dar"!

Quedê os gritos minha gente?
Por que esperar esta eternidade que não leva à nada, além da terra que está o tempo todo sendo coberta por cimento, prédio... favela...

Ah, não, não me iludo nos dias, nem mesmo o pedaço de chão já não me deixam? perguntaria o meu avô.

Envergonhada eu poderia responder:

- Vô, agora este lance de habitação está muito difícil mesmo,  e para os mortos também. Carecem de espaço. Na nossa cidade, então botaram uns prédios pros cadáveres, mas se existe mesmo alma, vocês podem brincar de ficar se olhando pela janela... mas tem que usar a imaginação, vô...

Danieli de Castro

Esquece

Todo camburão tem um pouco 
de navio negreiro. 

MARCELO YUKA

Violência é o carrão parar em cima do pé da gente e fechar a janela de vidro fumê e a gente nem ter a chance de ver a cara do palhaço de gravata para não perder a hora ele olha o tempo perdido no rolex dourado.
Violência é a gente naquele sol e o cara dentro do ar condicionado umas duas três horas quatro esperando uma melhor oportunidade de a gente enfiar o revólver na cara do cara plac.
Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso a ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas. 
Violência são essas buzinadas e essa fumaça e o trânsito parado e o outro carro que não demoraria essa eternidade atrapalhando o movimento na cidade.
Violência é você pensar que tudo deu certo e nada deu certo porque quando você vê tem um policial ali perto e outro policial ali perto querendo salvar  o patrimônio do bacana apontando para a nossa cabeça um 38 e outro 38 à paisana. 
Violência é acabarem com a nossa esperança de chegar lá no barraco e beijar as crianças e ligar a televisão e ver aquela mesma discussão ladrão que rouba ladrão a aprovação do mínimo ficou para a próxima semana.
Violência é a gente ficar co a mão levantada cabeça baixa em frente à multidão e depois entrar no camburão roxo de humilhação e pancada e chegar na delegacia e o cara puxar a nossa ficha corrida e dizer que vai acabar outra vez com a nossa vida. 
Violência é a gente receber tapa na cara e na bunda quando socam a gente naquela cela imunda cheia de gente e mais gente e mais gente e mais gente pensando como seria bom ter um carrão do ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois uma outra hora. 
Esquece. 

Marcelino Freire 
in: FREIRE, Marcelino. Contos Negreiros. 2ªed. Rio de Janeiro: Record, 2008

sábado, 5 de novembro de 2011

Diana banhou-se tranquila, daquele dia que sobrara lento no ano...
E sorriu pela permissão que dera a si mesma. Mais uma vez era liberdade e abrir os olhos dentro d´água ardia um prazer de ver além do que os olhos permitem.
E se deixou pensar naquele olhar de ontem. Porque todo olhar comunica algo, uma impaciência, uma dúvida, um  pavor, uma surpresa, um encantamento.
E ela só sabia olhar encantamentos agora, debaixo d´agua, olhando o teto claro do banheiro. A chuva estava no céu, mas não descia e a mulher era somente um corpo dentro da água e sorria.
Era um namoro novo, um carinho novo, ninguém sabia por quem ela andava com tantos cuidados e seus amigos viviam indagando, até que ela disse:
- Sou eu!
Olhos de espanto: O quê?
-Estou me namorando!
E todos caíram na gargalhada.
Só Diana, sabia que não estava ficando louca, pelo contrário, nunca se sentira tão lúcida.

Danieli de Castro

Man Ray

2

Posso dizer que a
Poesia
é essencialmente noturna...

E procurá-la
vão movimento

Mais sensato é esperá-la...

No aroma de um sorriso
Na espessa pétala de um jasmim
No calor da noite enluarada
Quem sabe, mesmo no amor...
No sabor de um beijo imenso, quem sabe?

Então, sem prevenir
a poesia desce quente
pela minha garganta

Me alimentando de
Eternidade...

A poesia é a minha
densidade...

Danieli de Castro 

Kurt Schwitters

" Ninguém vive só de Dadaísmo...
é necessário um dinheirinho..."

(dentro das poéticas visuais do João Bandeira)

Uau...

E acabou.
Se o sono me
leva

Te encontro
mais cedo

Beija, beija
Que é doce
o tempo...

É doce, amor...

Danieli de Castro

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

de outros caminhos

Ernesto estava vagando sem rumo quando encontrou seu destino, Lavínia estava desatinada, perplexa, quase deprimida, quase afogada... O homem de barbas grossas e um olhar pachorrento, enfim sabia o que fazer: Ajeitou os sentimentos da moça, alinhou as sensações, olhou fundo nos olhos dela e disse: Ernesto... Ela respondeu: Joel!
Então ele cuspiu pro lado, respirou fundo e repetiu: Ernesto... 
A moça não quis mais insistir, caiu nos joelhos do homem e chorou convulsivamente. 
Ernesto pensava quietinho, com a moça nos joelhos: "Chorando, é ainda mais linda..."

Danieli de Castro

Fábio Alexandre Sexugi

Mate

A brincadeira
predileta
do chá

é se ouvir
caindo no corpo
da xícara

com sua melodia aquosa
sua cor de madeira molhada...

Danieli de Castro