Sou eu

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Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lirinha...

Ai se sesse - Cordel de Fogo Encantado

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

no livro Cantigas por um passarinho à toa

Eu queria aprender
o idioma das àrvores
saber as canções do vento
nas folhas da tarde.
Eu queria apalpar os perfumes do sol.

Manoel de Barros

Coleção

Um olhar tranquilo
acompanhado por um voz compassada
gostosa de ficar ouvindo ouvindo...

Um beijo presságio que chega não chega.

Duas grandes mãos à espera de um corpo.

Um corpo à espera de um afago.

Sorrisos lindos e tão diferentes
de todos os jeitos.

Lábios ocultos pela grossa barba
Rosto exposto sem nenhuma mácula.

Pele bronzeada.

Tátil e serena, observa a vastidão
de um desejo
volátil...

Danieli de Castro

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Corra, Lola corra

Desacontecidos

Diana não descera as escadas com um pensamento vago 
nem encontrara Joel no meio da chuva. 


Eles não falaram de um passado compartilhado, 
e os olhos de Diana não brilharam uma iridescência poética vibrante 
que ficara talvez pulando sobre a mesa em alerta... 


Diana não falou de suas conquistas mais belas e importantes 
a Joel e ele também não falou a esmo de qualquer coisa para 
enfim falar de um desejo onírico. 


Joel não a tocou levemente no rosto, para enfim chegar nas 
coxas dela, nem a beijou desavisado, nem se ofendeu com a 
recusa frágil da moça poética e tolamente ingênua.


Joel e Diana não olharam aquela aliança na mão dele que lembrava 
sempre a presença da Lavínia... a musa de ouro de um presente imenso 
bonito, mas ignorado.


Diana não foi desafiada por um olhar de quem diz tudo, 
nem cedeu a um carinho impostado, calculado, assimétrico, 
mas desejado, profundamente. 


A noite não se abriu para que eles caminhassem sobre ela  
e não houve a coragem de dizer sim àquela curiosidade mais que 
desejo. Àquele sentimento de " vamos ver no que vai dar". 


Ela não foi despida por ele, nem se entregou no escuro para si 
mesma, num sentimento de proteção que quase quase falhara, 
nem ele lhe devassou as carnes e irrompeu-se dentro dela, faminto somente.


Joel não perdeu seu nome e Diana não chorou no escuro enquanto ele 
lhe perguntava coisas a esmo, somente para não serem esmagados pelo silêncio.
Ela não foi ao banheiro calada e chorou liberta um sentimento infame, um arrependimento 
tardio e vago, uma sensação de tristeza e mágoa que a afogara em si mesma no desejo de estar novamente só.


Do precipício de sua face, Diana não viu dois equilíbrios se jogarem 
desvairados, de par em par... desesperançados.


Joel não sofreu do peito aquela dor inventada, 
aquela pressa de fugir de um momento que ele mesmo, 
com a permissão de Diana, criara. 


Não houve beijos brancos pálidos lívidos 
desinteressados, de despedida... 


Joel não atravessou a rua correndo em busca de algo que esquecera que um dia tivera e talvez não tenha mesmo acontecido aquela dor premente. 


Diana não chorou no escuro aquele acontecimento incômodo, nem gostou do escuro tanto quanto achara que tivera gostado agora. Nem mesmo atendera ao telefonema insípido e desnecessário de Joel à meia noite, para acabar enfim com aquela agonia nova. 

Lavínia acordou de sonhos atarantados, pensando no noivo com um terror absoluto: Será que o conhecia mesmo?

E permaneceu em seus pensamentos estranhos até que noite chegasse e trouxesse de volta o seu amado. E ao vê-lo algo sumiu dentro dela e eles se beijaram sinceramente num amor bonito de casal apaixonado.

mas de repente:

Lavínia e Diana já eram a mesma pessoa...

domingo, 16 de outubro de 2011

Figura na janela - Salvador Dali

possessões

Enquanto sofro o mal
de que padeço
os móveis empoeiram-se
as louças sujam-se
a casa desaparece comigo

Eu sou simbiótica
com meu esconderijo
Se ele está triste
também estou

A minha cama já
não deixa espaço
para mim,

A rede não me abriga
com leveza
me atira ao chão

Eu salto diante do
espelho
ele estoura em
manifestação.

Danieli de Castro

domingo, 9 de outubro de 2011

de uma coragem

Era uma volta difícil, mas grandiosa. Ele a olhou nos olhos enquanto apertava calmamente seus seios. Ela não sorriu, nem corou... sentiu apenas.
E era uma parva perdida desencontrada naqueles braços de mar... Afogou-se...
Acordou e vestiu-se. Sem despedidas. Talvez voltasse a vê-lo algum dia.
Amália pressentia, seu caminho apenas começara. E ela sorriu uma coragem para o que via. Calmamente abriu a porta e partiu.

Danieli de Castro

sábado, 8 de outubro de 2011

Meninas

e houve assim uma saúde nova
banho de mar de cachoeira
de olhos amáveis e carinhosos
desejos descendo pela garganta
poesia dançando no meu peito
e era um leito assim estreito
onde abrigávamos a mesma delícia
solidão...

Vívidos e sorridentes,
braços e beijos
quentes e doces
era sorver a vida
pelos olhos arredios da menina moça
deliciosa, itinerante...

Dois olhares,
três mil e todas as árvores
dançando nas águas dos
meus prazeres...

Tamborilando um jazz
na cuca ela era a menina
de Foz do Iguaçu:
e sorria marota...

Cabelos, dedos,
lábios, ombros
olhos...

a vista é longa e talvez distante e mesmo antes de te conhecer já te sabia, vem comigo que a noite
promete mesmo nos fazer dançar no corpo dela...

-Vem, menina! Que a vida é curta e não espera!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eros

do nome

Quando ela, a mulher calada lúcida forte, Amália, chegou, era noite. Tudo parecia mais misterioso... mas ela não teve medo ainda. Era um reconhecimento.
Desceu a rua estreita que dava para o mar e sorriu ao ouvir o marulho das ondas, que pareciam brincar e brindar a chegada dela.
Ainda era o tempo do reconhecimento, da partilha muda. E sentou-se ao lado dele no chão, areia entre os dedos, cabelos ao vento. Sorria internamente. Louca...
Dos pés subiu aquele arrepio novo, uma brincalhona brisa...
Era um transporte, já não reconhecimento. E tudo vibrou no profundo olhar dela, cheio de horizonte, aquele negrume era um delírio e tudo fluía nela, assim, simples.
Ele quieto. Nada dizia. Nem nome nem palavra nenhuma, assim, quietinho. Quase não se ouvia sua tranquila respiração.
Ele pousou sua mão esquerda no pé direito dela... Um calor subiu pelo corpo todo da Amália. Ela então soube o nome dele, do homem.

Danieli de Castro

sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss

Melifluas

Os pés se afastam em direção ao tempo

- Moça, olha! O caranguejo!

As ondas se diluem na areia
O círculo protetor dos passáros grandes, imponentes
grandiosos...

Terra fria abriu seus olhos
e dentro dela a mulher escondeu seus sonhos
Não para sempre!

só um bocadinho, para se proteger
do calor do sol que... queima, queima...

O vento danadinho, sacudiu os cabelos das árvores
e elas reclamam envaidecidas, lindas!

- Para... aaaa aaaa aaaa

Suspiros longos envolvem as folhas que amanhecem
líquidas, brilhantes...

Talvez as pedras machuquem
mas também acalmam

o mar é quem as protege
um pêndulo mundo
se movimenta

é dia
e a alegria voltou.

Danieli de Castro