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Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

de repentes

De repente a certeza de um trilhar sem tropeços. Aguardava o tempo que chegaria para estar tranquila em seu espaço.
Não o pó do dia, o João o José o Raimundo, nem mesmo os empecilhos de uma vida que traga o tempo em sofrimento, dúvidas.
Ela sabe que tudo pode ser diferente, a qualquer momento se faz um novo caminho. O silêncio naquele quarto a intimidava, pela primeira vez uma cama a assustara.
Talvez somente o inesperado...
Silenciar o saber às vezes é sábio. Respeitar o outro, estar presente em seu medo e dúvida sem interferir em seu processo de crescimento. Falar devagar, pausadamente...

De repente sua vida parecia a mais normal do mundo. Ela esperava sua chance de ser além de si mesma, uma etapa seguinte uma coragem a mais.
Uma tensão se dissolvera nela, se transformara em nada.
Ela pensa no caminho de volta, às vezes o que parece difícil é mais fácil do que se espera.
Entrar num êxtase talvez embriagar-se de vida... Ela se surpreende com amor, ela que é sempre tão exigente com tudo, parece às vezes receber mais do que esperava.
Uma alegria que brilhou em seu rosto, duas satisfações e um contentamento, era feliz na contagem de suas experiências, seus incursos de vida.

De repente mais uma folha, nos pés um calor que deseja liberdade, ela espera chegar em sua casa e dizer "é minha!" e sorrir de si mesma e encantar-se com tudo, as luzes, os quartos, o banheiro, a porta de entrada e a janela, parece que a vida teve agora um tom de divertido, um colorido vivo!
A paz que sobra pelas linhas em branco, ela vem sacudir a existência das folhas, exaltar sua brancura, imprimir uma vida, uma agitação.
Talvez ele tenha terminado o seu trabalho, o meu parece estar sempre começando. Não sou o marrom bonito caramelo, sou o azul e o amarelo.

De repente o tempo que passa é um alento. Os olhos cansados e satisfeitos. As pessoas não se cansam de tando cotidiano?!
Debaixo, abaixo bem embaixo do rio construíram a linha amarela do metrô, estar lá é ter a sensação de que logo tudo será soterrado... um medo acalmado pela tranquilidade que oferecem as portas de vidro. Os trens vieram da Coreia do Sul, até eles já foram mais longe do que eu. Mas agora o seu destino é ir e voltar eternamente. Eu não. Eu posso ir adiante. Eu posso ser tudo o que quiser... E acredito no meu poder de transformação. Linda, inteligente, artística, misteriosa, alegre, bela...

Danieli de Castro

terça-feira, 26 de julho de 2011




Lançamento do Livro Coletivo do Grupo Escrita Total

Desde Fevereiro iniciamos uma deliciosa saga com a orientação do Ed! A grande mola propulsora foi a Escrita, a Literatura. Nós estivemos nos encontrando quinzenal e semanalmente durante todo este tempo e agora vamos finalizar este processo com o lançamento de um livro coletivo no Museu da Língua Portuguesa, no dia 06 de Agosto às 15h.

Me sinto muito honrada de ter conhecido pessoas tão bacanas e tão entregues ao mesmo propósito que eu. O Ed alinhavou nossa existência a um propósito muito maior do que a Literatura: A vida!

Participem também deste processo tão enriquecedor, venha nos conhecer e prestigiar no lançamento do nosso livro! Mais informações no link da postagem!

Aguardo a sua presença!

No trem

É impressionante como existem tantas linhas de trem e de metrô e mesmo assim não consigamos alcançar São Paulo inteira...


Ontem eu estava na linha Esmeralda do trem, sentido Grajaú. Não me lembro em qual estação especificamente ele entrou. Um senhor muito utilizado pelo álcool, sim, porque parecia que já não era ele quem bebia o álcool, mas o contrário. Olhos vermelhos, roupas amarrotadas e um pouco sujas, no bolso da calça jeans esfarrapada uma nota de dois reais amassada junto ao maço de cigarro. Tinha na mão um envelope marrom, com uma enorme etiqueta branca e letras pretas que diziam alguma coisa. Se sentou no banco a minha frente. Ao meu lado uma moça pequena ouvia música no fone de ouvido.


O mundo lá fora continuava a sua grande correria sem fim. E eu permiti uma pausa.


Ele sentia algo se movendo nele... Dava para perceber, um olhar angustiado. Olhava para o chão até que encontrou o meu olhar. Eu não sei exatamente se foi ele quem encontrou o meu olhar ou o contrário. Mas ele sentiu um abrigo. E começou a falar de si. Não desviei o olhar como de costume, continuei olhando para ele e assentindo que sim com a cabeça ou movimentando as sobrancelhas  em sinal de surpresa. Foram apenas dois olhares.


Ele falou do respeito que os filhos tinham por ele, do seu vício no cigarro, porque fuma dois maços por dia, mas que mesmo assim os filhos o respeitam. Disse que trabalha e dá todo o dinheiro na mão da namorada. Que no dia anterior havia gasto Cento E Cinquenta Reais com ela, mas que estava feliz, porque ela era gente boa! Mostrou o anel que havia comprado e disse do colar que ficou em casa. Abriu toda uma vida para mim. Apenas por um olhar... 


Quando o trem parou na minha estação eu finalmente disse: Tchau, um bom dia para o Senhor! E ele respondeu: Um bom dia! Gostei muito de conversar com você!
Eu não disse nenhuma palavra, mas para ele foi uma conversa...


Para quantas vidas, pessoas, histórias não temos diariamente fechado os olhos?
Vivemos num medo constante de tudo, não nos olhamos, não chegamos perto um do outro, não largamos nossos pertences por nada. Sim, por segurança. Existe muita violência, mas acho que existe mais medo do que violência. Enfim. Eu me dei uma pausa no sentir medo.


Não foi difícil, porque ultimamente quando sinto medo, lembro de uma gravação que diz repetidamente, " Está tudo bem, não há nada a temer, você não precisa temer nada." E então me sinto mais tranquila.


Acontece que este senhor se destacou de certa forma para mim. Enquanto ele olhava para o chão remoendo seus pensamentos, existia de forma incômoda para os outros passageiros. Ele era a miséria de todos nós que escondemos... A decadência que não permitimos em nós e que julgamos como fraco quem permite. A moça ao meu lado ficou visivelmente incomodada com a minha recepção àquele senhor. O hálito dele era puro álcool. Todos nós estamos em vias de chegar ao estado  deste senhor, mas por temermos a nossa miséria julgamos a do outro...


A vida é esta loucura toda, porque aceitamos vivê-la desta maneira. Se todos estivéssemos realmente preocupados com a vida, não permitiríamos os grandes bolsões de miséria... mas quem quer abrir mão de seu conforto? 


Eis a questão.