Sou eu

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Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

domingo, 29 de maio de 2011

Encontro


Um mesmo destino era ali que estávamos todos reunidos num belo sorriso, verdadeiro, intenso.
Acolhidos pelos nossos braços  no meio da cidade concreta e ácida, éramos limão geladinho com sabor de delícia.
Cada contato um deleite, cada frase um desfrute, no meio da palavra éramos TOTALmente um elo que mesmo distante no espaço, se sabia junto na intenção. Interligados, um a um, ligados sem pesar nem barreiras, conscientes de nós no meio de outros nós, e esta ligação era um saber implícito.
Mesmo as pessoas que se aproximaram do nosso grupo não puderam notar a nossa intrínseca união. Era, éramos somente, num bonito sábado quente...
Quente no abraço, de roçar levemente pele com pele, sem intenção ou agravo, um calor acolhedor de certezas, dúvidas, alegrias, olhares, questionamentos,anseios, carências, gargalhadas, brilho e silêncios.
E de todos os cantos surgia cada um dos pontos daquele encantamento, os que vieram primeiro, os que chegaram um pouco depois e tão único corpo éramos que um só membro mobilizou o corpo todo para dizer:
- Eles ainda não chegaram.
E a vontade crescendo daquela gradual aproximação de ideias, desejos, sorrisos e cheiros, num abraço expandimos a nossa existência:
-HOU!
E acabou...  O passeio!

Danieli de Castro

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cinco dias e umas lágrimas

o sobejo era aquele ar cansado
um suspiro enfadado 
aconteceu quando definhou a poesia...

um dois três dias ela esteve agonizando
quatro cinco meses lástimas e um vazio sem fim
seis sete oito nove dez!

No frio a sopa esfria, rápida!
naquele dia ele esteve calado triste
suspirando um destino além do seu. 

queria levantar-se e dizer chega...
mas lhe faltava a exclamação.

era um lábio
e uma mão
uns olhos 
e dois silêncios...

Inscrições para Programação no Centro Cultural Banco do Brasil - Clique aqui para maiores informações

Estão abertas as inscrições para programação 2012/2013. Os projetos selecionados irão compor a grade de programação dos Centros Culturais Banco do Brasil Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, nas áreas de música (popular, erudita e instrumental), exposições (pintura, escultura, fotografia, gravura, instalação, multimídia e outros), artes cênicas (teatro, dança, performance, circo, ópera), cinema e vídeo (mostras e festivais - exceto Belo Horizonte), programa educativo (oficinas, cursos e visitas orientadas) e ideias (palestras, seminários e conferências).

As inscrições são gratuitas, vão até o dia 31 de maio de 2011 e estão abertas a pessoas físicas e jurídicas, de qualquer nacionalidade e região do País, sendo feitas exclusivamente pelo site www.bb.com.br/cultura

domingo, 15 de maio de 2011

Anjos do Sol

de uma dor

Novamente a mulher aparecera nos sonhos de Amália, maltrapilha, estrábica, com um odor desagradável, ela vinha dizer que era tempo de andar por outros terrenos.
Amália sentia-se feliz e aconchegada com Solano, já não pensava mais em Ernesto e acabara acreditando que este era enfim o seu destino. Porém todas as noites aquela mulher lhe dizendo a mesma coisa acabou por convencê-la.
-Acho que preciso ir embora...
-O que você tá dizendo, Maia?
-Não sei...
-Chega aqui, pequena... Que história é esta?
Amália se deitou no peito daquele homem forte e algo a sacudiu de repente e ela pôde enfim chorar:
-O que é que foi, Amália? Tá doendo algum lugar?
-Tá...
-Onde? Me fala, que aflição, menina, me diz logo Maia?
Ela não sabia exatamente onde é que doía, mas havia sim uma dor. Não quis olhar nos olhos de Solano, nem responder mentindo. Chorou de lábios cerrados, tentando calar algo que não sabia bem o que era e porque motivo era...
Solano lhe trouxe uma chavena de chá bem quente e lhe deu uns biscoitos secos... Ela já não queria adormecer... A mulher... mas seus olhos cerravam e a levaram a outro lugar, sem a mulher.
Amália acordou disposta, a dor tinha se perdido em si mesma.
Alguém chamou na porta. Ela foi atender, era uma mulher com uma criança nos braços...

Danieli de Castro

O Leitor

No meio da música Meu Mundo do Otto, texto na voz do Lirinha

Conforto alucinante, tranquilidade na clareira do caos
O ponteiro, ele rodou mais rápido no mesmo relógio de ontem
O que as horas guardam nos espaços do contra-tempo?
A mulher?



O desejo é um tempo parado
É quando se trocam as datas dos bichos e das flores
É quando aumenta a rachadura da velha parede
É quando se vira a folha, a folha da história
É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta
É quando se endurece o rastro de sorriso
No canto dos olhos
Eu sei que a viagem é longa
A voz vai e vem
Você ta aí?
Você ta aí?
Ei, voce estaí?
Vontade de abraçar o infinito

Império dos Sonhos

no meio do inferno astral...

A vida tem lá das suas...
Acontece que percebi uma coisa tão corriqueira. Aquela história: Estamos bem, tranquilos, aí surge aquela pessoa que não tem feito bom uso da própria vida, vê sua alegria, se enfurece fica vermelha de inveja e de todos os modos tenta destruir o que você edificou para sua vida... Seria mais inteligente e sensato construir ou buscar a própria felicidade, mas o ser humano está longe de ser coerente...
E ficam duas pessoas infelizes, porque geralmente não entendemos que se a pessoa está de alguma forma tentando atrapalhar o nosso caminho é justamente, porque o dela "anda muito mal das pernas". O que ela precisa mesmo é de ajuda...
Bem, devido esta breve reflexão é que decidi indicar o livro Os quatro compromissos, de Dom Miguel Ruiz. Confira nos Petiscos Literários!

domingo, 8 de maio de 2011

Luz fluída incandescente

Noutro tempo, aquele mesmo rosto, aquele mesmo corpo grande de dedos macios. Uma aproximação amena. Eu escuto o que você pensa com a solidariedade de um cão selvagem que não aceita ordens.
Numa vertigem éramos novamente nós dois naquele tempo de um amor que tem seu próprio odor, seu destino em mãos. Ele que sempre dizia das coisas efemêras, descobriu finalmente que o elo estava para sempre ali entre nós dois.
E foi um tempo de memória vívida, cabelos soltos ao vento, a alma presa a um cansaço e ela, a menina, cresceu no seu passo enfim, que na vida há desses meios de uma garota precisar encontrar no caminho quem ela realmente é ou poderia ter sido. Um amor que cresce sem medida nem assombro, sem medo, mas com um pouquinho de vergonha, posto que ser exige estas medidas.
Diante daquele sol, com os pés na areia, ela não sorriu, não corou nem mentiu ao dizer tudo aquilo que seu coração pedia em silêncio e ela atendeu.
Suas mãos puderam enfim tocar o rosto, o rosto dela, da jovem senhorinha, tão moça ainda, dedos engelhados pelo contato constante com a água, ela pode ver então seu rosto moço de apenas vinte e três anos e um sorriso apontou em seus olhos, ela flutuava na delícia daquele momento de júbilo.
Estranhamente, pôde enfim apreciar estar só, devagar o sal do mar era também o sal das suas lágrimas, calmas solidárias, sentidas com cada parte de seu corpo, cada fio de cabelo, mas não doía nada... Era um fluir verdadeiro de flor na lapela inexistente, um sonho de sorriso, uma realidade líquida, possível sem fim...
Caminhou devagar pela areia da praia até que o dia se pôr e descansar, como ela mesma pôde enfim sossegar o peito, abrir o sorriso para a lua e sentir-se a dona de um universo que ela mesma construíra para a morada de seus amores, desejos, sorrisos... positividades.
Era um caminho colorido e tranquilo de andar com calma para apreciar cada ponto de beleza naquele céu infindo que ela encontrara, enfim para ser seu mundo interligado com seu ímpeto vital.

Danieli de Castro

Naquele nome um desejo

Por entre os galhos molhados pelo orvalho perdeu-se os olhos daquele homem que cresceu no precipício, sempre a ponto de se derramar.
A idade de uma árvore antiga o dotava da vagareza simples de existir por metro quadrado, de realizar as coisas com pontualidade.
E aqueles olhos oblíquos, de um negro sem viço sem brilho... era como voltar no tempo e visualizar o que já não existe, mas que poderia ter sido...
Um nome uma data e o homem estava envolto de tudo aquilo que o arrebatou e mexeu profundamente.
Ocorre... era um momento etílico, uma sobra, um sobejo.
Nos dedos dos pés ocultava toda a ansiedade.
Com o cenho franzido afastava aquela música que quer voltar de um tempo distante, distante e tão próximo ainda.
O cigarro queimando entre os dedos diz: Eu queimo por você, eu queimo todos os dias por você! Numa súplica muda de querer que o ouçam além da barba que oculta o jovem corpo, o jovem sentimento vital.
Quando as luzes se apagam os membros se acendem debaixo da lua então, cresceu um desejo. O homem não corre, arrasta com vagar as chinelas. Então um comando, um gesto, um soluço, o suor, a conexão sem conexão está jogando areia fina naquele tempo, naquele nome, naquela música...
Ele acorda, calça as chinelas e caminha, devagar com o cigarro queimando entre os dedos, todo dia a mesma súplica, todos os dias a mesma súplica...

Danieli de Castro

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Patativa do Assaré

O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mio.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagano, com sua viola,
Cantano, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.
Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordano a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.
Eu canto o caboco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topano as visage chamada caipora.
Eu canto o vaquero vestido de coro,
Brigano com o toro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhano lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedino o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morano no campo, sem vê a cidade,
Cantano as verdade das coisa do Norte.


Patativa do Assaré

(ASSARÉ, Patativa do, Cante lá que eu canto cá.
Petrópolis: Vozes, 1984. p. 20 e 21.)