Sou eu
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Fragmentos para uma postagem no Mundo Fantástico
"De novo Ulisses a ajudara, sobretudo com o tom de sua voz que era muito rica em inflexões. E Lóri pensou que talvez essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes: a de pedir mudamente socorro e mudamente este socorro ser dado. Pois, apesar das palavras trocadas, fora mudamente que ele havia ajudado. Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então um homem, Ulisses, tivesse sentido que um tigre ferido não é perigoso. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.
E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podiam agradecer. Então ela, o tigre, dera umas voltas vagarosas em frente ao homem, hesitara, lambera uma das patas e depois, como não era a palavra ou o grunhido o que tinha importância, afastara-se silenciosamente. Lóri nunca esqueceria a ajuda que recebera quando ela só conseguiria gaguejar de medo. "
p. 121
"Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível.
Um dia procurou entre os seus papéis espalhados pelas gavetas da casa a prova do melhor aluno de sua classe, que ela queria rever para poder guiar mais o menino. E não achava, embora se lembrasse de que, na hora de guardá-la, prestara atenção para não perdê-la, pois era muito preciosa a composição. A procura se tornava inútil. Então ela se perguntou, como antes fazia, já que perdia tanto as coisas que guardava: se eu fosse eu e tivesse um documento importante para guardar que lugar eu escolheria? Na maioria das vezes isso a guiava a achar o perdido.
Mas desta vez ficou tão pressionada pela frase "se eu fosse eu" que a procura da prova se tornara secundária, ela começava sem querer a pensar, o que nela era sentir.
E não se sentia cômoda. "Se eu fosse eu" provocara um constrangimento: a mentira em que se havia acomodado acabava de ser levemente locomotiva do lugar onde se acomodara. No entanto já lera biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida, pelo menos de vida interior. Lóri achava que se ela fosse ela, os conhecidos não a cumprimentariam na rua porque até sua fisionomia teria mudado. "Se eu fosse eu" parecia representar o maior perigo de viver, parecia a entrada nova do desconhecido.
No entanto, Lóri tinha a intuição de que, passadas as primeiras perturbações da festa íntima que haveria, ela teria enfim a experiência do mundo. Bem sabia, experimentaria enfim em pleno a dor do mundo. E a sua própria dor de criatura mortal, a dor que aprendera a não sentir. Mas também seria por vezes tomada de um êxtase de prazer puro e legítimo que ela mal podia adivinhar. Aliás, já estava adivinhando porque se sentiu sorrindo e também sentiu uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais. Ser-se o que se é, era grande demais e incontrolável. Lóri tinha uma espécie de receio de ir longe demais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde. Ela se guardava. Por que e para quê? Para o que estava ela se poupando? Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande. Talvez se contivesse por medo de não saber os limites de uma pessoa."
p.125,126
" Só deu uma mordida e depositou a maça na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo - de um estado de graça.
Só quem já tivesse estado em graça, poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração, que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte.
O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia. [...]
Lóri saiu do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não tivesse sorrido, era como se o corpo todo acabasse de sair de um sorriso suave. E saíra melhor criatura do que entrara.
Havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos limites dessa condição. E exatamente porque depois da graça a condição humana se revelava na sua pobreza implorante, aprendia-se a amar mais, a esperar mais. Passava-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis.
Havia dias que eram tão áridos e desérticos que ela daria anos de sua vida em troca de uns minutos de graça."
p. 131,134
Clarice Lispector
In Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Uns olhos profundos
de ver a alma toda...
a chuva chegando
a fez sorrir de um alegria
difícil
mas inteira.
um beijo
sincero e
um amor...
Danieli de Castro
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Manjericão
O cortejo das mulheres pretas
passou
cheiro de
manjericão
macerado
subjetividades
líquidas
transpostas vívidas
num olhar.
Danieli de Castro
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Eogrito
Ruidosos passos passados, rumorejam incessantes...
e
ela chora um silêncio de pedras irremovíveis, pouco importa o final frio fome e aquela maldita dança ritual cortejo...
é sangue faltando no teu olho e nas minhas mãos: uma violeta violenta vívida escorrendo em nossas vidas.
eu que me rendi à paz... apática. Me rendi apática. eu que me rendi apática. apática.
e
ela chora um silêncio de pedras irremovíveis, pouco importa o final frio fome e aquela maldita dança ritual cortejo...
é sangue faltando no teu olho e nas minhas mãos: uma violeta violenta vívida escorrendo em nossas vidas.
eu que me rendi à paz... apática. Me rendi apática. eu que me rendi apática. apática.
Danieli de Castro
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Olhares
Trovoando
recipiente
líquido...
escorrendo
gélida
sólida...
Endurecendo
mãos se perdendo
uma
lágrima.
Danieli de Castro
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Uma beleza maquiada
Estes teus olhos de pó
Seco
Azul pálido...
A respiração presa
Lábios entreabertos.
Apenas uma pausa.
Meus olhos se arriscam
e...
Estes teus olhos de pó
Seco
Azul pálido...
A respiração presa
Lábios entreabertos.
Apenas uma pausa.
Meus olhos se arriscam
e...
Danieli de Castro
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domingo, 20 de fevereiro de 2011
XX
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo : 'La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos'.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche immensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos arboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto al amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Escribir, por ejemplo : 'La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos'.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche immensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos arboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto al amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Pablo Neruda
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Oração
"(...) alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada a minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém."
Clarice Lispector
in Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres, p.112,113
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
talvez ou mais e tantos
O tempo vai passando...
e a gente vai aprendendo...
desaprendendo...
Tantos amores se apagam na primeira brisa.
Talvez porque o amor tem a leveza do instante
talvez porque não fosse amor deveras
talvez porque o sempre nunca compreenderá o amor...
o tempo vai passando...
e a gente vai aprendendo
e conhecendo e demarcando
o que realmente é importante.
Posto que é chuva quem me paralisa
e brisa quem me desafoga
a poesia é uma saída
para sofrer um pouco menos a realidade...
ou para sofrer um pouco mais.
tantos e tantos e tantos mais e mais
quero mesmo é sentir devagar o que me passa
visto que o amor vai e volta
nem sempre na mesma pessoa
no mesmo ideal
eu gosto de estar...
apenas.
tranquila...
Danieli de Castro
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Na janela do dia - Renata Rosa
Já não te esperava mais
Tu chegaste como um dia
Radiando luz
Tu chegaste como um dia
Radiando luz
Vieste
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Uma mágoa,
Um barco de pescaria
E na janela do dia
Olinda erguida de dentro d’água
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Uma mágoa,
Um barco de pescaria
E na janela do dia
Olinda erguida de dentro d’água
Vieste
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Uma mágoa
Tornou minhas tardes vazias
E a saudade tingia
Olinda erguida de dentro d’água
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Uma mágoa
Tornou minhas tardes vazias
E a saudade tingia
Olinda erguida de dentro d’água
Vieste
Vestida de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da tua anágua
Uma mágoa,
Um barco de pescaria
E na janela do dia
Olinda erguida de dentro d’água
Vestida de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da tua anágua
Uma mágoa,
Um barco de pescaria
E na janela do dia
Olinda erguida de dentro d’água
Me deste
Cada flor que tu colhias
E os teus olhos teciam
A seda da minha anágua
Que mágoa!
Tornou minhas tardes vazias
E a saudade tingia
Cada flor que tu colhias
E os teus olhos teciam
A seda da minha anágua
Que mágoa!
Tornou minhas tardes vazias
E a saudade tingia
Olinda erguida de dentro d´água
Vieste
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Que mágoa!
Tornou as tardes vazias
E a saudade tingia
Olinda erguida de dentro d’água
Vestido de pedraria
Bicho da seda tecia
A seda da minha anágua
Que mágoa!
Tornou as tardes vazias
E a saudade tingia
Olinda erguida de dentro d’água
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Indagação
Como é que se apaga o tempo?
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Bilhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Mário Quintana
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Literatura
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Loreley e a casa subterrânea
Levantou-se na manhã escura
atrás de grossas nuvens o
ceu se escondia...
a magia oculta na palmilha
do sapato tinha cheiro de talco.
uma delícia de imagens
enfeitiçava tudo.
Ela era...
atrás de grossas nuvens o
ceu se escondia...
a magia oculta na palmilha
do sapato tinha cheiro de talco.
uma delícia de imagens
enfeitiçava tudo.
Ela era...
Danieli de Castro
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