
Sou eu
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Entre - Mário Deganelli
No trabalho tão simplificado de amar,
Entre o raio calado e a luz que gerou.
Entre o gozo mais amplificado e a dor – “entretanto são tantas!”
O medo da perda e a perda do medo e o medo que a perda gerou
A dor da corrente e a corrente certeza que a ausência que o amor colocou.
Entre a luz de um olhar e um olhar que apagou
Entre um lábio molhado e o que se entregou
Entre os sons e o calor e o odor do suor
Entre a cor e a carne
Entre a tez e o toque
Entre a excitação
Entre...
Entre o raio calado e a luz que gerou.
Entre o gozo mais amplificado e a dor – “entretanto são tantas!”
O medo da perda e a perda do medo e o medo que a perda gerou
A dor da corrente e a corrente certeza que a ausência que o amor colocou.
Entre a luz de um olhar e um olhar que apagou
Entre um lábio molhado e o que se entregou
Entre os sons e o calor e o odor do suor
Entre a cor e a carne
Entre a tez e o toque
Entre a excitação
Entre...
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
Justice in the world
Lição um:
Vingança é uma maneira
saudável de renascer.
[Pudera, o olhar daquele
instante opor-se ao
mundo
todo.
A grandeza da moça
residia em seu pasmo
pelo absurdo mundial]
Lição dois:
Justiça é uma maneira
estúpida de impor e expor coisas
certas e ou erradas
Ato Um:
E a moça enfiou a vingança toda
no cu da Justiça.
E a Justiça viu que aquilo não
era bom.
Danieli de Castro
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Poeta Danieli de Castro
terça-feira, 19 de outubro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
A casa é sua - Arnaldo Antunes
Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar
Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar
Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Não me falta banheiro, quarto
Abajur, sala de jantar
Não me falta cozinha
Só falta a campainha tocar
Abajur, sala de jantar
Não me falta cozinha
Só falta a campainha tocar
Não me falta cachorro
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar
Para os pássaros voltarem a cantar
E a nuvem desenhar um coração flechado
Para o chão voltar a se deitar
E a chuva batucar no telhado
E a nuvem desenhar um coração flechado
Para o chão voltar a se deitar
E a chuva batucar no telhado
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
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música
No centro da cidade
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Linda
Talvez um sorriso
nem um beijo
um grande medo
paralisada
dentro da vida
sem fotografia.
ela não soube
que já era a segunda vez...
e aquela imagem inunda toda
a retina dela de um sentimento
inconfessável...
Danieli de Castro
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Poeta Danieli de Castro
Minha preta cor de canela
A vó é toda
contradição
jovem e espirituosa
enérgica e afetuosa
a vó mente todas as
histórias com uma
fluência magnífica
nem cora quando se contradiz:
rapidinho arranja
outro elemento e
enfeita tudo de novo
faladeira e reclamona
chora de barriga cheia
dramática dramática.
É a vó que faz o café
mais gostoso...
-Vó, eu te amo!
-Eu também te amo, porque você me ama.
A vó é cheia de
racionalidades
ternas.
Danieli de Castro
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Poeta Danieli de Castro
Tia
Gata maracajá
da cor da noite!
Sempre rival
fumaça nos lábios
Cintura fina
grandes olhos
pequenas mãos
Coração delicado
alma feroz
Orixá
da guerra...
e do amor
Tudo junto e ao mesmo tempo
Dança, enquanto fala,
na fumaça de um cigarro.
Danieli de Castro
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Poeta Danieli de Castro
Tio
Porque eu nasci depois
de um ano que nasceu meu tio.
Ai né meu tio me deu um
soco na boca e aí né eu
fiquei pensando que ele
era muito forte. Fiquei
admirada!
Quando tínhamos a mesma
idade cantávamos uma música popular
em dueto: alegríssimos!
E uma vez brincamos de uma
brincadeira proibida, debaixo
da mesa da cozinha...
Então, já éramos adolescentes:
Avistei um garoto lindo
olhos cor de mel
brilhando contra o sol
em direção ao mar...
Ao reconhecer meu sangue nele
fiquei toda envergonhada.
Nos descolamos do tempo
Nossas idades amalucaram
Não se sabe mais quem
Nasceu primeiro quem depois.
Só nos reencontramos
novamente quando ele inicia
qualquer frase dizendo:
-Fia, você...
Aí eu entendo de novo
que ele ainda me ama.
Danieli de Castro
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Poeta Danieli de Castro
Fut
Olhos oblíquos
de brincadeiras contínuas:
Ele ainda sabia
sorrir com o
coração inteiro.
-Vamos com a gente!
-Anda logo!
-Eu vou com tio Dêti!
E no sabor da despedida
foi com a pequena bicicleta
acompanhando até
a esquina aquela
moça estranha...
é que ele já estava sentindo
falta dela, só não entendia bem o porquê...
Danieli de Castro
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domingo, 17 de outubro de 2010
to love somebory - Janis Joplin
"Cause I can't find you with my love,
And I can't find you babe, oh anywhere."
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O amor nos tempos do cólera
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do impasse
Amália sorria por dentro uma novidade que a apaziguava de sua vida. Ela sorria dentro de si, pois Ernesto não podia perceber sua alegria. No entanto de nada adiantava, ele pressentia mudanças inquietantes, mas não dizia nada a sua companheira, por perceber que de nada valeria.
Caiu a noite estrelada, tomada de uma brisa cheirosa. Amália sentia que as estrelas sabiam seu segredo e não podia com a clausura de seu quarto quente ao lado de Ernesto, tudo ali a sufocava. Pegou seu velho xale e decidiu caminhar um pouco, mesmo já estando a madrugada a reinar no mundo.
Caminhou inconscientemente para próximo da casa de Solano que dormia, sono alto. Sentou perto de onde já sabia ser onde ele dormia e adormeceu ouvindo-o ressonar.
Seus sonhos já não se diferenciavam, toda noite sonhava com Solano de uma ou de outra maneira.
Solano acordou, como todos os dias, no mesmo horário e saiu para ver o sol nascer. Talvez já fizesse parte de sua plácida natureza, não se espantou ao ver a mulher de Ernesto dormindo encostada na parede de seu quarto. Hesitou em acordá-la por não saber o que dizer-lhe e ficou admirando-a, pela primeira vez notou que além de carregar uma beleza envelhecida, ela trazia na pele uma sabedoria inaudita, mas sensível completamente sensível.
Caiu a noite estrelada, tomada de uma brisa cheirosa. Amália sentia que as estrelas sabiam seu segredo e não podia com a clausura de seu quarto quente ao lado de Ernesto, tudo ali a sufocava. Pegou seu velho xale e decidiu caminhar um pouco, mesmo já estando a madrugada a reinar no mundo.
Caminhou inconscientemente para próximo da casa de Solano que dormia, sono alto. Sentou perto de onde já sabia ser onde ele dormia e adormeceu ouvindo-o ressonar.
Seus sonhos já não se diferenciavam, toda noite sonhava com Solano de uma ou de outra maneira.
Solano acordou, como todos os dias, no mesmo horário e saiu para ver o sol nascer. Talvez já fizesse parte de sua plácida natureza, não se espantou ao ver a mulher de Ernesto dormindo encostada na parede de seu quarto. Hesitou em acordá-la por não saber o que dizer-lhe e ficou admirando-a, pela primeira vez notou que além de carregar uma beleza envelhecida, ela trazia na pele uma sabedoria inaudita, mas sensível completamente sensível.
Danieli de Castro
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sábado, 16 de outubro de 2010
do mar
Foi quando o amor deu uma pausa
e sobrou somente uma carícia lenta
leve saborosa
a língua descendo e subindo
e uma risada solta dentro
dos meus olhos
é que eu podia me
transvariar em água
mas decidi ser areia
fragmentada e pequenina
mas perseverante
na idéia de estar cada dia
mais próxima das águas
do (a) mar.
e sobrou somente uma carícia lenta
leve saborosa
a língua descendo e subindo
e uma risada solta dentro
dos meus olhos
é que eu podia me
transvariar em água
mas decidi ser areia
fragmentada e pequenina
mas perseverante
na idéia de estar cada dia
mais próxima das águas
do (a) mar.
Danieli de Castro
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Água doce
Deitou-se na pedra
enquanto sua mãe lavava
seu rosto
seus braços
pernas e pés
alisando toda ela com um carinho...
Olhando o ventre dela
a menina esqueceu-se de chorar.
Voltou limpa e leve
sua mãe ficou lá
ainda e até agora.
E na menina nasceu um sorriso
dentro do peito
que só a fazia crescer
e crescer...
enquanto sua mãe lavava
seu rosto
seus braços
pernas e pés
alisando toda ela com um carinho...
Olhando o ventre dela
a menina esqueceu-se de chorar.
Voltou limpa e leve
sua mãe ficou lá
ainda e até agora.
E na menina nasceu um sorriso
dentro do peito
que só a fazia crescer
e crescer...
Danieli de Castro
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Águas da Serra
claras,
do escuro dos morros,
cantando nas pedras a canção do mais-adiante,
vivendo no lodo a verdade do sempre-descendo...
Águas soltas entre os dedos da montanha,
noite e dia,
na fluência eterna do ímpeto da vida...
Qual terá sido a hora da vossa fuga,
quando as formas e as vidas se desprenderam
das mãos de Deus,
talvez enquanto o próprio Deus dormia?...
E então, do semi-sono dos paraísos perfeitos,
os diques se romperam,
forças livres rolaram,
e veio a ânsia que redobra ao se fartar,
e os pensamentos que ninguém pode deter,
e novos amores em busca de caminhos,
e as águas e as lágrimas sempre correndo,
e Deus talvez ainda dormindo,
e a luz a avançar, sempre mais longe,
nos milênios de treva do sem-fim..
Guimarães Rosa
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
É cansaço de tudo...
Basta.
É preciso mudar de planos, de rumo.
É...
Basta.
É preciso mudar de planos, de rumo.
É...
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Danielidades
...
Um imenso sentimento de apenas estar...
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Danielidades
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Domingo sentimental
A doçura de um olhar disperso
talvez somente um estar não estando...
Um som perdido demais para ser
trilha, imagens retroativas demais
para serem entendidas.
E amor explodia nas frases intensas
de vidas cruzadas.
- Obrigada pelo domingo.
- Eu também te amo.
Sussuravam sonhando.
DANIELI DE CASTRO
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