Sou eu

Minha foto
Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Lorenzo?

Cheia de sensibissaudade

Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim

Ai que saudade d´ocê- Geraldo Azevedo


Não se admire se um dia
Um beija-flor invadir
A porta da tua casa
Te der um beijo e partir
Fui eu que mandei o beijo
Que é pra matar meu desejo
Faz tempo que eu não te vejo
Ai que saudade de ocê
Se um dia ocê se lembrar
Escreva uma carta pra mim
Bote logo no correio
Com frases dizendo assim
Faz tempo que eu não te vejo
Quero matar meu desejo
Te mando um monte de beijo
Ai que saudade sem fim
E se quiser recordar
Aquele nosso namoro
Quando eu ia viajar
Você caía no choro
Eu chorando pela estrada
Mas o que eu posso fazer
Trabalhar é minha sina
Eu gosto mesmo é de ocê

domingo, 25 de julho de 2010

Triste Domingos

Domingos era um homem plácido, acertado na vida. Não tinha grandes dívidas, nem grandes posses. Casara-se por nada haver além disso a ser feito em sua idade, na época.
Sua esposa se casara com ele porque era isto o que esperavam há muito que ela fizesse. Sendo assim, não tinham grandes problemas sentimentais, conviviam cordialmente com seus cheiros e manias que se misturavam cada dia mais, a ponto de não conseguirem mais distinguir o cheiro do outro em certos pontos da casa e mesmo na roupa que vestiam, nem lembrarem-se quem tinha mesmo instituído o hábito de se lavar a calçada toda sexta-feira e quem tinha abolido o sal da comida.
Certo dia, ao se levantar pouco depois que sua esposa, o homem se lembrou da idade que tinha e resolveu contabilizar sua vida. Não tinha inimigos nem amigos, dois filhos que mal se lembravam que tinham pai e mãe, produzira produtos e gastara todo seu dinheiro consumindo-os, não era um afortunado, não amargava melancolias nem saboreava gargalhadas.
Domingos se deu conta de que nunca tinha experimentado a felicidade... esta que está exposta nos outdoors, nas propagandas, aquelas que as grandes paixões causam, cheia de uma intensidade febril, juvenil, daquelas que mostram todos os dentes.
Lembrou-se que um dia, quando ainda tinha um certo charme, uma cara romântica; olhos cavados e fundos de umas olheiras evidentes e um ar desolado, as mulheres carentes e solitárias sempre tinham olhos lânguidos e úmidos para ele. Quase teve um caso, mas na sua rotina não coube mais uma pessoa e ele se resignou. A pretendente a amante logo enamorou-se de outro romântico, engravidou de três pequenos, perdeu a beleza e a esperança e acabou abandonada numa casinha pobre em algum lugar por aí.
Domingos, um homem plácido, acertado na vida nesta manhã sentiu uma tristeza intensa... emocionou-se deveras: foi o mais forte sentimento que teve em toda sua vida. Faleceu num domingo frio e cinza, numa tarde de Agosto do ano corrente.

DANIELI DE CASTRO

Linda... tá tudo bem...

Valvulazinha

bem, há dentro do peito da gente uma valvulazinha que é acionada toda vez que necessário. Pois bem.
Eis que...

Ainda não aprendi a delicadeza, eu sei. Talvez ainda seja tempo. O que nos falta? O que nos resta?
O que me aflige? O que me aplaca? E a Clarice já nos tinha dito tudo isto, mas não foi suficiente dizer... como não é suficiente somente pedir desculpas.
É muito fácil agredir e depois somente dizer a grande palavrinha mágica: Desculpe.

Tudo bem... no fim das contas a vida é este emaranhado de aprendizados, se não aprendi ainda é porque, talvez, ainda haja tempo.

e só pra registrar, vai novamente o texto da Clarice Lispector, com o discurso do Ulisses...

ai...

"eita, vida besta meu Deus."

"Olhe para todos a seu redor e veja o que temos feito de nós.
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não entendemos porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas, coisas e coisas, mas não temos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não esteja catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos o que realmente importa.Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."

in Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector

"postado em 25/09/2009- Danielidade - Ele pensou que eu fosse chorar... Ulisses!"

Delicadeza

Gentileza- Marisa Monte

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
À você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta

domingo, 18 de julho de 2010

Amor à flor da pele

de um átimo

Acontecia algumas vezes enquanto se amavam, Amália esquecia-se de seu nome e do nome dele. Embora nem lhe passasse pela cabeça chamá-lo, distraía-se em meio ao prazer do toque, perguntando-se: Qual é mesmo o nome dele?

Neste dia, quando o ato do amor acabou, ela fechou os olhos tranquila. Entregue a sensação leve do sono... mas então se revolveu entre os lençois, com um modo transtornado de se mover. Depois de um tempo neste impasse abriu os olhos assustada:

-Ernesto?!!!
-O que é que foi?

Ela suava...

-Nada...


DANIELI DE CASTRO


O Fabuloso Mundo de Amélie Poulain

Pronto, agora vai!


NOite SEverina - NeyMatogrosso e Pedro Luis eA Parede

Corre calma Severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos a sua maneira
Cada ser tem sonhos a sua maneira
Corre alta Severina noite
No ronco da cidade uma janela assim acesa
Eu respiro seu desejo
Chama no pavio da lamparina
Sombra no lençol que tateia a pele fina
Sombra no lençol que tateia a pele fina
Ali tão sempre perto e não me vendo
Ali sinto tua alma flutuar do corpo
Teus olhos se movendo sem se abrir
Ali tão certo e justo e só te sendo
Absinto-me de ti, mas sempre vivo
Meus olhos te movendo sem te abrir
Corre solta suassuna noite
Tocaia de animal que acompanha sua presa
Escravo da sua beleza
Daqui a pouco o dia vai querer raiar

Les chansons d´amour

Olhando para o dia, disse: Te quero!

Dentre as divagações sobrou um delírio simples de cadela solta, que cisma em volta de um pedaço velho de carne.

Ei, este cabelo é meu!

Não sugiro que continue, o grito virá e só será audível os problemas pueris do seu coração.

Um passado que passa é somente um passado, mas ela descobriu uma lacuna e voltou correndo: NÃO. E eu que não tenho nada a ver com isto, senti uma dor leve, somente por saber-me uma figura interessante na sensaboria do mundo.

Da proposta de um amor que valha, eu sorri. Um amor... um amor. Sorrindo. Se entregou.

O volume das coisas é que nos exaspera, Antonio Alexandre Romeu João Cristiano Roberto Anderson Felipe... Amigos, irmãos, amantes, seres donos de um dia cinza.

Eu não quero mais, pode ficar.

Linda, o que é que foi?

-Eu não sei...

DANIELI DE CASTRO
(recortes)

E tu mama también

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Vc é caretona!!!

Araras versáteis


Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

Hilda Hilst

terça-feira, 13 de julho de 2010

Aguarras

O Aguarrás é um periódico bimestral online científico sobre artes. Muito interessante, por sinal.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Finalmente - Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede


A vida toda eu esperei por agora
Sentir o teu perfume assim tão de pertinho
Esse teu cheiro que existe só na flora
Naquelas flores que também contém espinhos
A vida toda eu esperei essa glória
Beijar mordendo esses teus lábios de fruta
Boca vermelha cor de amora cor da aurora
Dois cogumelos recheados com açúcar
Já vem de longe esse desejo perene
Suco de kiwi escorrendo lentamente
Não é de hoje que eu preciso conter-me
Chegou a hora vamos ver finalmente

domingo, 11 de julho de 2010

Pressa nenhuma

Algum tempo para entender
outro tempo para vivenciar
as panelas estão sujas na pia
a língua não desenrola nunca
há uma nuance de uma energia
que não se decide se é boa ou má
tudo que cai na terra se renova ou nasce?
olhando tudo como tem passado
creio que há sempre uma saída
e todo o caos que foi gerado
nada mais é do que um cisco no olho:
é só tirar.
a noite molhou o colchão que me cabia
e não quis mais dormir
fiquei esperando o dia chegar
porém no fim das contas
é só uma resistência, persistência ou
simplesmente
cautela...
Contudo, não me preocupo um nada
por tudo que já vi e sei que virá
pois já se passou a tormenta
o tempo do entendimento
o corpo descansado e íntegro
a alma vagando nua e singela
e eu dentro de mim
estou assim:
sem pressa nenhuma...

DANIELI DE CASTRO

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poeira

E tudo foi caindo
sem pressa
com uma monotonia nova
cheia de pedigree...

os cabelos
os olhos
os lábios...

o pescoço
o peito
o abdome...

tudo se desintegrando devagar
em meio à ilusão daquilo...

ventre
pernas
pés...

e fim.

virou poeira poética.

DANIELI DE CASTRO

terça-feira, 6 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

O ritual

Ernesto e Amália eram dois estranhos nesta terra imensa. Tantas coisas comuns não faziam nem se lembravam de fazer. Eram dois perdidos e reencontrados por si mesmos. Todavia, alimentavam um ritual periódico que despertava de dentro deles num momento inesperado, quase sempre depois do sexo. Eles se sentavam diante um do outro e começavam a falar de tudo que achavam preciso. Não nomeavam de declaração amorosa, simplesmente era um ritual, um hábito adquirido.
Estavam deitados na esteira de palha, era preciso que ficassem bem juntos para não sentirem o frio do chão de terra batida. Sentiram o momento chegar e diferente de todas as vezes continuaram deitados olhando um para o outro bem devagar atentando para todos os detalhes daquele rosto a sua frente. Amália sentia o calor do olhar de Ernesto lhe tomando todas as forças e se calou pressentindo que deveria esperar:
- Conheci muitas Amálias, algumas duraram um dia inteiro, outras um instante apenas, mas a que perdurou e eu continuo vendo em minha frente é a criatura que se cala, que espera, que rumina... e todo o sentimento que eu tenho é para esta Amália, inteira em sensações pressentidas... o que eu tenho hoje para você é o nome de querida, de desejada, de forte e de obstinada.
-Perdi um tempo entendendo a fragilidade do homem das frases certeiras, de alvos predefinidos. O tempo que perdi com esta tensão foi o que ganhei de mais valioso. Nem digo teu nome, porque não é preciso, hoje tenho para você apenas um carinho armazenado para as horas incertas e um colo que sempre te recebe passivo e quente.
As mãos se encontraram no silêncio, ao fim das palavras que os abençoavam. Adormeceram.

DANIELI DE CASTRO

Rochelle- porto do período colonial na França

a La Rochelle

"(...)Foi na primeira noite de bom mar, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e o fez com tanto cuidado que a ela pareceu natural a sugestão de que vestisse a camisola. Foi trocar de roupa no banheiro, mas antes apagou as luzes do camarote, e quando saiu com o camisolão calafetou com panos as fendas da porta, para deixar a cama em escuridão absoluta. Enquanto agia, falou de bom humor:
- O que é que você quer, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
O doutor Juvenal Urbino sentiu que se esgueirava junto a ele feito um bichinho, procurando se manter mais longe possível num leito onde era difícil estarem dois sem se tocar. Tomou-lhe a mão, fria e crispada de terror, entrelaçou seus dedos nos dela, e quase num sussurro começou a contar suas lembranças de outras viagens por mar. Ela estava tensa outra vez, porque ao voltar à cama percebeu que ele se desnudara por completo enquanto ela estava no banheiro, o que fez renascer seu terror do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino continuou falando muito devagar, enquanto se apoderava milímetro a milímetro da confiança de seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor em Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, no ônibus, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do verão, e faziam o amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava nas sombras, acariciou-lhe a curva do pescoço com a ponta dos dedos, lhe acariciou a penugem de seda dos braços, o ventre evasivo, e quando sentiu que a tensão cedera, fez uma primeira tentativa de lhe levantar a camisola, mas ela o deteve com um impulso típico do seu caráter. Disse: "Sei fazer isso sozinha." Tirou-a, de fato, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino poderia pensar que já não estava ali, não fosse o calor de sol do seu corpo nas trevas.
Ao fim de um momento tornou a lhe agarrar a mão,
e então sentiu-a quente e solta, embora úmida ainda de um orvalho suave. Ficaram outro momento silenciosos e imóveis, ele aguardando a ocasião para o passo seguinte, ela a esperá-lo sem saber por onde, enquanto a escuridão se ampliava com sua respiração cada vez mais intensa. Ele a soltou de repente e deu um salto no vácuo: umideceu na língua a ponta do dedo médio e lhe tocou apenas no bico desprevenido do seio, e ela sentiu uma descarga de morte, como se tocada num nervo vivo. Alegrou-se de estar às escuras para que ele não visse o rubor esbraseado que lhe fez tremer até as raízes do crânio. "Calma", disse ele, muito calmo. " Não esqueça que os conheço." Sentiu que ela sorria, e sua voz soou doce e nova nas trevas.
-Lembro muito bem - disse - e ainda não passou minha raiva.
Então ele soube que tinham passado o cabo da boa esperança, e tornou a pegar-lhe na mão grande e macia, e cobriu-a de beijinhos orfãos, primeiro o metacarpo áspero, os grandes dedos clarividentes, as unhas diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que sua mão chegou até o peito dele, e esbarrou em algo que não soube adivinhar o que fosse. Ele disse: " É um escapulário." Ela lhe acariciou os pelos do peito, e depois agarrou o matagal completo com os cinco dedos para arrancá-lo pela raiz. " Mais forte", disse ele. Ela tentou até o ponto em que sabia que não ia machucá-lo, e depois foi sua mão que buscou a dele perdida nas trevas. Mas ele não deixou que os dedos se entrelaçassem, agarrando-lhe o pulso e conduzindo a mão dela ao longo do próprio corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, mesmo ao contrário do que ela própria teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou inerte onde ele a pôs, mas encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem, cerrou os dentes com medo de rir da própria loucura, e começou a identificar pelo tato o inimigo empinado, tomando conhecimento do seu tamanho, a força do seu talo, a extensão de suas asas, assustada com sua determinação mas compadecida de sua solidão, tornando-o seu com uma curiosidade minuciosa que alguém menos experiente que seu esposo teria confundido com carícias. Ele fez apelo às últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio morta, até que ela o largou com uma graça infantil, como se tivesse jogado no lixo.
-Nunca pude entender como é esse aparelho - disse.
Então ele o explicou a sério com seu método magistral, enquanto lhe carregava a mão pelos lugares que mencionava, e ela a deixava entregue com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu num momento propício que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela lhe deteve o braço, dizendo: "Eu vejo melhor com as mãos." Na realidade queria acender a luz, mas queria que fazê-lo ela própria e não recebendo ordens, e assim foi. Ele a viu então em posição fetal, e além do mais coberta com o lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a agarrar outra vez sem afetações o animal de sua curiosidade, virou-o do direito ao avesso, observou-0 com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: " Para lá de feio, mais feio que o das mulheres." Ele concordou, e assinalou outros inconvenientes mais graves que a feiúra. Disse: " É como o filho mais velho, que a gente passa a vida trabalhando para ele, sacrificando tudo por ele, e na hora da verdade acaba fazendo o que lhe dá na veneta." Ela continuou a examiná-lo, perguntando para que servia isso, e para que servia aquilo, e quando se considerou bem informada sopesou-o com ambas as mãos, como para concluir que nem pelo peso valia a pena, e o deixou cair em muxoxo de menosprezo.
-Além de tudo, acho que tem muita coisa de sobra- disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original de sua tese de graduação tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia-lhe antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis para outras idades do gênero humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e por isso mesmo menos vulnerável. Conclui: "É coisa que só Deus pode fazer, sem dúvida, mas de todas as maneiras seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos." Ela riu divertida, de um modo tão natural que ele aproveitou a ocasião para abraçá-la e lhe deu o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu, e ele continuou a lhe dar beijos muito suaves nas faces, no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e lhe acariciou o púbis redondo e liso: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado de alerta, caso ele avançasse um passo mais.
-Não vamos continuar com a aula de medicina- disse.
-Não - disse ele. - Esta vai ser de amor.
Então, tirou o lençol de cima dela e ela não só não se opôs como o atirou para longe do beliche com um golpe rápido de pés, pois já não aguentava de calor. Mais do que parecia quando ela estava vestida, seu corpo era ondulante e elástico, com um cheiro próprio de animal montês que permitia distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa à plena luz, uma onda de sangue fervente lhe subiu à cara, e a única coisa que lhe ocorreu como disfarce foi se grudar ao pescoço do seu homem, e beijá-lo a fundo, bem forte, até que gastaram no beijo todo o ar de respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Casara-se porque gostara da sua altivez, sua seriedade, sua força e também por um tico de vaidade, mas enquanto ela o beijava pela primeira vez teve a certeza de que não haveria nenhum obstáculo para inventar um bom amor. Não falaram a respeito nessa primeira noite em que falaram de tudo até o amanhecer, nem falaram nunca. Mas de um modo geral, nenhum dos dois se equivocou.
Ao despontar do dia, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não o seria por muito tempo. A noite seguinte, com efeito, depois que ele lhe ensinou a dançar as valsas de Viena debaixo do céu sideral do Caribe, ele teve que ir ao banheiro depois dela, e quando voltou ao camarote encontrou-a esperando por ele nua na cama. Então foi ela quem tomou a iniciativa, e se entregou sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vestígios de cerimônia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez mais melhor no resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle se entendiam como amantes antigos."



GARCIA, Gabriel Marques. O amor nos tempos do Cólera. Rio de Janeiro: Editora Record. 1995 pgs194-199

Postagem atrasada

"Ele a olhou e pensou que era bonita e que seria duro abandoná-la. Mas o mundo, do outro lado da janela, era mais lindo ainda. E, se por aquele mundo abandonasse uma mulher amada, ele lhe seria mais caro. Do preço do seu amor traído.
- Você é linda - disse ele- , mas preciso traí-la.
Desvencilhou-se do seu abraço e avançou na direção da janela.



KUNDERA, Milan. A vida está em outro lugar. São Paulo: Círculo do Livro. 1973. p.110

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Momento nostálgico

Evitei o quanto pude o caminho da volta, mas não houve meios de impedi-lo totalmente. O mesmo trajeto de quase todos os dias e mais um pedaço que não foi alcançado. Foi o suficiente. Meu corpo estava comigo, mas minha mente estava distante... naquele lugar aonde parecia que a atmosfera era diferente, não de magia, mas de... de... uma atmosfera de... não sei explicar, mas sei como sinto.
Toda vez que eu descia do ônibus e atravessara a rua com aquela sensação contínua de que estava atrasada, parecia estar virando a página do meu dia, para uma ilustração mais colorida, uma coloração que vinha de dentro de mim e só hoje eu percebo...
Sempre dez pras nove, tomávamos o café da manhã e as segundas-feiras eram as melhores, todos cansados fisicamente, mas cheio de novidadezinhas engraçadas ou desconsertantes.
E eu ficava sempre com um "medozinho" de a Julieta não vir, porque aí o dia seria diferente, não seria do mesmo jeito fluído... quando ela chegava me dava aquele bom dia bonito que só ela soube dar, dizendo o meu nome com um a nasalizado e bem alongado: - Bom dia Dãããni. Era mais doce e envolvente do que um abraço.
O jeitinho da Luzia de preparar o café, de perguntar se estava bom, aquela carência afetada e cheia de floreios e cuidados que acalentavam e prendiam sutilmente, ela rapidamente se tornava indispensável na vida de qualquer um. O jeito carinhoso de falar e o afeto que botava em tudo que fazia, inesquecível.
-Pessoal, vamos tirando os brincos, piercings...
e aí aquela prosinha matutina ia indo indo e eu tinha que me desligar do gosto daquilo e voltar a minha função.
Quando a vivência começava eu voltava pro gosto bom do dia e ficava observando cada um deles, o modo como iam se modificando, a entrega e a rebeldia de cada um... a impetusiodade e a passividade de cada um... a vontade deles de fazer um comentário qualquer e continuar a prosinha do café, era minha também, mas eu não podia admitir, porque além de estar trabalhando eu também gostava do que fazia e queria que tudo desse certo, estivesse nos eixos. Como já disse o nosso querido Drummond, "de tudo fica um pouco", não sei o que talvez tenha ficado da Dani em cada um deles, mas de cada um deles me ficou uma boa memória, que causa muita saudade...
Acho que fui muito mais Dani do que Arte Educadora de Cultura... E a Educadora que sou hoje devo ao meus queridos que tanto me ensinaram: Thatá, Tati, Glauce, Tami, Gabi : as Pedrinhas Sapopemba mais lindas e talentosas(e faladeiras, kkkkkkkkkk)!!! A Jana, a She, o Mike, O Fáah, o Rafa, a No, a Ari, a Thaís(com aquele jeitinho arredio de sempre): pérolas matutinas do KARAMANÔ TURÊ AUÊ!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
É o sabor de um tempo bom, cheio de uma energia vivificante, provinda dos artistas que me ensinaram a arte no contato diário e só hoje entendo como tudo isto foi sublime... pelo menos pra mim.

Danieli de Castro