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Descobrindo meus ângulos, meus brihos internos...

sábado, 23 de maio de 2009




Menina negra

A minha negritude se deu ao meu nascimento, mas aceitá-la foi muito difícil, porque cresci aprendendo que ser negro é feio, é uma mácula no "seio branco e leitoso de nossa honrada sociedade"- que deita no chão para os europeus e norte-americanos passarem- uma culpa sem perdão.
Toda vez que me chamavam de neguinha eu chorava muito, porque não queria ser feia e maculada. Meu maior desejo era ficar com os lábios mais finos e a pele mais clara.
Fui tomar consciência de que este desejo é incutido em nós propositalmente devido ao preconceito racial e toda a história do negro na sociedade, bem tarde. E ainda não me sinto com propriedade suficiente para defender a minha etnia e origem. Estou caminhando para este fim!

Acontece que outro dia estava procurando um livro na internet para presentear a minha sobrinha e não encontrei quase nada que tratasse da questão da menina negra. Tem o Menino Marrom do Ziraldo, mas eu queria uma história em que minha sobrinha se reconhecesse enquanto uma garota negra não como um garoto negro ou uma menina loira que ela não é. (Discussões de gênero à parte).
Persisti um pouco mais na minha busca e encontrei um muito lindinho entitulado Meninas Negras da Madu Costa, que conta de modo muito singelo como são estas três meninas: Mariana, Dandara e Luanda ... Além de ser uma história suave o ilustrador Rubem Filho deixou a história com cores intensas e suaves, com uma alegria sutil. O livro traz uma valorização da negritude através do resgate dos valores africanos, baseados na natureza.

Tudo isto para de dizer que achei importantíssimo ter encontrado tal livro, posto que se aos meus cinco anos de idade tivessem lido pra mim tal história eu saberia lidar muito melhor com a minha negritude e não demoraria tanto tempo para entender o que é ser negro e o que isto acarreta numa sociedade onde vigora o preconceito racial.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

indagações...

o que sou eu sem o Estado que determina o que eu posso ou não fazer?

o que sou eu sem minhas próprias idéias?

elas são completamente minhas?

o que seria do mundo se não houvesse essa estrutura de governo (onde poucos mandam e todos obedecem)?

como seriam os ocidentais, caso não "nascessemos" cristãos?

e os orientais, caso não fossem "guiados" pela religião?

como viveríamos se praticássemos na realidade cotidiana, a liberdade, a igualdade e a fraternidade?

como seríamos se soubéssemos o que realmente significam tais palavras?

e se um dia acordássemos livres dos grilhões que nos obrigam a sermos a bons cidadãos e bons e obedientes empregados?

e a natureza?

como estaria se os europeus não tivessem devastado grande parte dela e todos a respeitassem?

quantos índios ainda estariam vivos?

como seria a vida dos negros sulamericanos?

e todas estas indagações pra que servem?

O amor revisitado...

olhando ao redor...

esta nuance suave...

essa frescura na pele...

a leveza da brisa...

não...
nada há mais que dizer.

Ame!

Danieli de Castro

sábado, 9 de maio de 2009



Conheci o trabalho deste grupo ( que hoje já se desfez, mas deixou como memória algumas coletâneas poéticas) através do livro Sete versus sete ( e se resolvermos falar de amor).
Nesta coletânea de número cinco é possível observar o contato com a palavra de diversas formas e um manejo interessante com o tema Amor, que na obra é tratado de diversos ângulos.
Ainda nãotive a oportunidade de conhecer as outras coletâneas do grupo, mas achei a que tive contato interessante o suficiente para divulgar.
Todo o trabalho deles se deu na cidade de Santo André, onde alguns residiram ou residem e o grupo teve início por volta da década de oitenta.
Na foto acima está faltando um dos integrantes, visto que o grupo é composto por sete poetas: Cláudio Feldman, Dalila Teles Veras, Francis de Oliveira, Jurema Barreto de Souza, Rosana Chrispim, Tônia Ferr e J. Marinho.
Este último leciona Literatura Brasileira na Fundação Santo André e eu tive o privilégio de assistir a muitas dessas aulas, cujo conteúdo é ministrado através de uma poética sublime em muitas das vezes. Enfim, embora o J. Marinho seja um tanto arrogante, suas aulas são de um alto teor de qualidade e lirismo.
E é só.
Se quiserem saber mais, perguntem ao deus Google... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Constatações

No covil de sonho e pecados, o relógio, pêndulo asqueroso e indesejável, era o único elemento a fazer lembrar a finitude das coisas, apanhado-os em cheio nos flagrantes delitos da paixão.
Por força das circunstâncias e tradição, escondiam zelosamente o que na verdade queriam mesmo era ver exposto em luminosos outdors, feito propaganda de eleição. Impossível conter o que por predestinação deveria explodir.
Gulosos semideuses, enxameavam as tardes de beijos, na certeza da autosufiência na farta produção de mel e pólen, daquela fértil estação. A eternidade de plantão à porta da colméia.
À chegada da primeira lua nova veio o desejo de outros e arriscados vôos rasantes, variação de sabores e o contato com outras corolas e pistilos.
Debaixo de sóis enfurecidos deu-se a dessacralização repentina, inevitável constação do efêmero, descoberta necessária à própria lei da sobrevivência.

Dalila Teles Veras
Grupo Livrespaço

elizabeth

a
eu disse que nunca tinha lido o ars amandi o cântico dos cânticos e o kama sutra
b
que só conhecia o sexo estereotipado da zona
c
ela se espantou: me julgava um moço fino universitário freqüentador de cocaína- dançante
d
mesmo assim me convidou para amarrotar o seu leito
e
no caminho luzia um seio farto
f
mas ao perceber na cama o primo e um dobermann recusei
g
ela disse que só podia esperar isso de mim
h
voltei para casa debaixo de uma garoa sem nexo e nunca mais soube de elizabeth

Cláudio Feldman
Grupo Livrespaço

II

Amar em silêncio, pelas noites e dias adentro, esperando decifrar o enigma do tempo em que aguardo conhecer suas margens, seus relevos, suas mãos perfumadas e macias percorrendo a minha pele.
Amar o mistério das rochas silenciosas sob a fúria dos vento e conhecer o amor a ponto de passar todos os anos da vida aguardando a materialização do sonho, sedimentado no decorrer de tantas noites vazias.
Amar na expectativa dos dias, um após o outro, e assim, eternamente, aguardar a recompensa de sua boca que, na necessidade de conhecê-la mais bela, meus olhos criaram.

Francis de Oliveira
Grupo Livrespaço